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"Eu sou um infinito de personagens inventados desde o momento em que pude compreender a grande farsa que é ser apenas mais um ser humano normal..."

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"Le Retour! Talvez se eu pudesse voltar a um lugar onde nunca fui, quem sabe eu conseguiria dizer onde eu gostaria de ficar..."

"Eu só queria voltar para casa. Voltar para meu velho edredom que a ninguém mais aqueceu. Voltar para as brincadeiras de pique - esconde, pula-pula, fantasias e sentir outra vez o desejo de ser adulto somente para assistir na TV aquele beijo que insistiam em me ocultar... Qual era o pecado daquele beijo? Mas o meu edredom não existe mais, não consigo me esconder nos mesmos lugares, o pula-pula agora é uma questão de sobrevivência, e o beijo, ah... O beijo eu entendi porque me ocultavam... Era simplesmente para não morrer minhas fantasias... Como eu queria voltar para a casa..."

"- Sabe que não dói mais como antes? – disse-me ela, fixando o olhar em um ponto oposto ao meu, na tentativa de não ter sua evasiva analisada por mim. E continuou a se enganar. Saiu com os amigos, dançou, pulou, sorriu, falou alto, exorcizou os demônios, se indispôs com alguns anjinhos, se sentiu livre, feliz... Feliz? Quase feliz... O fato é que dali a alguns dias, o telefone começa a tocar... Opa! Admirador na área! A vida seguia seu rumo. Afinal, essa é a ordem natural das coisas, não é mesmo? A palidez de seu olhar, entretanto, denunciava a ausência de emoção em sua voz, por mais que se esforçasse gentil... Mais alguns dias, e um bouquet à porta... - Puxa vida! Deve ter custado uma nota! Ela não reparou na beleza das flores cuidadosamente escolhidas e arranjadas por debaixo de um belo cartão enviado... Rosas vermelhas! Mas rosas que não exalavam cheiro de amor, não lhe representavam nada, muito diferente daquele bouquet recebido meses atrás, no dia de seu aniversário... Mesmo assim, recebeu, agradeceu e sorriu, com direito a sufocar toda dor que sentia naquele momento... Foi aí que a realidade lhe caiu à cabeça... Na verdade, ainda doía. Na verdade, ainda não tinha passado. Na verdade, ainda estava em carne viva! Então ela percebeu que ele tinha mesmo ficado, ficara em forma de ferida, que com o tempo se tornaria uma cicatriz. Por enquanto, ainda estava visível... E por isso, as pessoas se afastavam com medo de se machucarem também, e outras, queriam curá-la, algumas até mesmo escondendo a própria cicatriz, pequenina com o passar dos meses... Ela sabia que um dia a sua cicatriz também se reduziria, seria levada para outra parte do corpo, talvez para um lugar que não mais lhe incomodasse ou pudesse ser vista à olho nu. Porém, ela continuaria ali, contornada pelas lembranças que se fixam à pele como se dela fosse parte... E ainda que outra pessoa a fizesse sorrir, vez ou outra, a cicatriz seria apontada, questionada, encontrada... Mas ela sabia que ele também carregaria a mesma cicatriz... E mesmo que outra pessoa o fizesse sorrir, ela continuaria ali, marcada em seu corpo, tatuada à pele, fazendo parte dela... E se algum dia não fosse mais encontrada, ainda assim ela estaria ali, tatuada à alma, uma cicatriz na alma, completamente impassível e imune à qualquer tratamento de cura..."

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