"A maior mentira que nos contaram - e que nós, piamente, acreditamos - é essa, a de que tudo passa. Nada passa. Passa coisa nenhuma. A gente aprende a viver com as escaras, aprende a colocar ungüentos nos talhos fundos, conhece outras pessoas que são como bálsamos sobre as nossas feridas, mas elas, as sanguinolentas, as danadas, as malsãs, elas não passam. Uma mulher é uma chaga sempre aberta. Um homem é uma ferida sempre exposta. Nada passa. Sentimentos? Eles se transformam em outros sentimentos, mas não passam. As pessoas que você amou, nunca te causarão indiferença (indiferença, o oposto do amor), sua única certeza é que você sempre vai sentir algo quando as encontrar - algo bom ou ruim, muito bom ou muito ruim. As pessoas que te menosprezaram, te usaram ou simplesmente te rejeitaram, continuam, cada qual com sua adaga, perfurando seu amor-próprio, dia após dia, umas mais, outras menos. Somos todos, homens e mulheres, mestres no fingimento, na dissimulação, no recalque, mas a verdade, meus caros e minhas caras, a verdade é que nada passa. Por isso você vê uma mulher histérica ao pegar uma cebola podre no supermercado, por isso você vê o homem agindo como um primata no trânsito, por isso seu chefe estoura sem razão, por isso você teve uma crise de choro durante aquele filme, por isso as pessoas têm chiliques inexplicáveis: porque nada passa e nós precisamos de válvulas de escape. Um colega da oitava série, chamado Fernando, olhou para mim em novembro de 82, e disse: 'Nossa, como você é gorda'. A ferida continua aberta."
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Ver todas"(...)para justificar nossa opinião, negamos a existência de uma opinião contrária. Para averbar nosso ponto de vista, dizemos que quem não pensa como nós, está mentindo. Essa estratégia, além de antipática, é preconceituosa. Ela traz em si o germe da intolerância (que alimenta, por exemplo, o terrorismo), sua conseqüência é, no mínimo, a negação de qualquer pensamento divergente. (...)Quanta insegurança! Alguém pode ter um sonho único, bizarro até, e ainda assim, ele ser legítimo. É legítimo que ela tenha o sonho de se casar como princesa, é igualmente legítimo ter um sonho diferente ou não ter sonho algum."
"A fúria de uma mulher rejeitada pode tomar as formas mais diversas: dedicação, controle, masoquismo, raiva, vingança, obsessão, santidade. Talvez essa tal fúria contenha, ao mesmo tempo, todos os bizarros ingredientes."
""...Talvez haja um homem tão cansado de cumprir papéis quanto você e você vai sair para cobrar dele justamente mais um espetáculo nesse mesmo cansativo papel?...""
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