"Tempos idos Não enterres, coveiro, o meu Passado, Tem pena dessas cinzas que ficaram; Eu vivo dessas crenças que passaram, e quero sempre tê-las ao meu lado! Não, não quero o meu sonho sepultado No cemitério da Desilusão, Que não se enterra assim sem compaixão Os escombros benditos de um Passado! Ai! Não me arranques d’alma este conforto! - Quero abraçar o meu passado morto, - Dizer adeus aos sonhos meus perdidos! Deixa ao menos que eu suba à Eternidade Velado pelo círio da Saudade, Ao dobre funeral dos tempos idos!"
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Ver todas"Vozes de um túmulo Morri! E a Terra — a mãe comum — o brilho Destes meus olhos apagou!... Assim Tântalo, aos reais convivas, num festim, Serviu as carnes do seu próprio filho! Por que para este cemitério vim?! Por quê?! Antes da vida o angusto trilho Palmilhasse, do que este que palmilho E que me assombra, porque não tem fim! No ardor do sonho que o fronema exalta Construí de orgulho ênea pirâmide alta, Hoje, porém, que se desmoronou A pirâmide real do meu orgulho, Hoje que apenas sou matéria e entulho Tenho consciência de que nada sou!"
"Sofredora Cobre-lhe a fria palidez do rosto O sendal da tristeza que a desola; Chora - o orvalho do pranto lhe perola As faces maceradas de desgosto. Quando o rosário de seu pranto rola, Das brancas rosas do seu triste rosto Que rolam murchas como um sol já posto Um perfume de lágrimas se evola. Tenta às vezes, porém, nervosa e louca Esquecer por momento a mágoa intensa Arrancando um sorriso à flor da boca. Mas volta logo um negro desconforto, Bela na Dor, sublime na Descrença. Como Jesus a soluçar no Horto!"
"O Bandolim Cantas, soluças, bandolim do Fado E de Saudade o peito meu transbordas; Choras, e eu julgo que nas tuas cordas, Choram todas as cordas do Passado! Guardas a alma talvez d’um desgraçado, Um dia morto da Ilusão às bordas, Tanto que cantas, e ilusões acordas, Tanto que gemes, bandolim do Fado. Quando alta noite, a lua é fria e calma, Teu canto, vindo de profundas fráguas, É como as nênias do Coveiro d’alma! Tudo eterizas num coral de endeixas… E vais aos poucos soluçando mágoas, E vais aos poucos soluçando queixas!"
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