"Hoje eu vi você. Estava sozinha, distraída, ausente, mas quando você passou, eu o vi. Num ímpeto me levantei, gritei seu nome, acenei, mas você só passou! Passou rápido! Deixou seu cheiro no ar... Não me conformei. Estabanada, procurei a chave do carro, nem sequer coloquei o cinto de segurança, primeira marcha, e parti! Parti atrás de você... Você já estava longe... Acelerei! Meu coração disparado, meus pensamentos em desordem, só sabia que tinha visto você! Nem sei se queria falar com você, ouvir sua voz, não sei se tinha alguma coisa a lhe dizer ou se você teria alguma coisa a me dizer! Mas eu o vi, e não resisti... É sempre assim, não é mesmo? Na hora tudo se resolveria, pensei. Na hora, quando os olhos se encontrassem, as mãos se tocassem, o corpo falaria... Você virou a esquina. Virei também... Você continuava de costas. Eu continuava a te seguir, agora devagarzinho... Você parou. Eu estacionei. Minha voz estava embargada. Não conseguia dizer seu nome. Então, te toquei... Um toque leve, sutil, carinhoso... Você se virou para mim. Virou-se e não me reconheceu. Continuei sem dizer seu nome. Se não saíra antes, muito menos sairia agora. Depois de tudo o que vivemos, você não sabia de quem eram aqueles olhos que insistiam em querer te levar a resposta à boca! Era eu! Seu amor! Seu grande amor! Por que não me reconhecia? Só que você continuava assustado, arredio, como se não entendesse absolutamente nada do que se passava ali... Um outro homem passou à minha frente. Também vi você. Olhei para o outro lado. Lá vinha você outra vez! E lá dentro do carro, no semáforo, você sorria para mim! Mais confusa ainda, dei meia volta, te deixei ali parado, atônito, e sem qualquer explicação, voltei para casa. No caminho, encontrei outros de você, apressado, falando com outras pessoas, abastecendo o carro, comprando uma cerveja, ao telefone, questionando um auto de infração, sorrindo... Mas hoje eu vi mesmo você!"
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Mais de Eliane azevedo
Ver todas"O que fazer das sobras do amor? O que fazer das lembranças do cheiro, da voz, do toque, dos olhos, das cócegas, dos risos, das viagens, das imagens? O que fazer das lembranças do abraço, das mãos, do carinho sutil, do carinho voraz, do banho, do café à mesa, dos filmes vistos, criticados, admirados, inacabados? O que fazer da música escolhida, do beijo prolongado, roubado, do amor no carro, na sala, no quarto? O que fazer quando o telefone toca e do outro lado não se ouve mais a mesma voz? O que fazer das mensagens gravadas, das cartas escritas, dos sentimentos impressos, dos presentes guardados? Mas o que fazer também das ofensas do amor? O que fazer das lembranças dos gritos, das afrontas, dos olhos marejados, decepcionados, das palavras cortantes, do filme repetido, dos sonhos ruídos, da sensação do desconhecido? O que fazer com a sensação de culpa, fracasso, impotência, incoerência? O que fazer dos sentimentos revirados, transformados, do ódio repentino, do amor estilhaçado, quebrado, tantas vezes remendado? O que fazer da ausência que se sente? Ausência de paz, ausência da ausência, ausência de si mesmo? O que fazer? Talvez o tempo se encarregue de apagar as lembranças, de mudar o cenário, de reinventar o passado...Por hoje, não sei o que fazer com tudo isso..."
"Se é impossível ser feliz, te amar e estar com vc, então eu vou te amar e tentar ser feliz. Mesmo sem vc..."
"Eu só queria voltar para casa. Voltar para meu velho edredom que a ninguém mais aqueceu. Voltar para as brincadeiras de pique - esconde, pula-pula, fantasias e sentir outra vez o desejo de ser adulto somente para assistir na TV aquele beijo que insistiam em me ocultar... Qual era o pecado daquele beijo? Mas o meu edredom não existe mais, não consigo me esconder nos mesmos lugares, o pula-pula agora é uma questão de sobrevivência, e o beijo, ah... O beijo eu entendi porque me ocultavam... Era simplesmente para não morrer minhas fantasias... Como eu queria voltar para a casa..."
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