"DE UM OBSERVADOR A mulher não é somente ela. É também o seu clima. Perfumes não são recomendáveis. Melhor é o odor que se descobre, se possível de talco, banho recente ou capim cheiroso espalhado no armário. Nada de voz aguda. Respire bem e conseguirá um tom médio. Cabelos molhados incentiva. Mulher não deve ter certezas. Atrapalha e atemoriza. Bom mesmo é o ar de pode ser. Melhor ainda é a eterna possibilidade de nos deixar com a impressão de estarmos revelando as verdadeiras descobertas. Alguma dúvida não faz mal ao ar de interrogação. Nada de muita jóia. Aquele brinquinho de furar a orelha de criança ou mesmo orelha furada, sem o brinquinho, é recomendável. Relógio, jamais de correia grossa. Mas nada é tão belo quanto penugem na contramão. Manja certos bracinhos lindos? Pois penugem na contramão é aquela que vem descendo pelo braço e de repente muda direção. Nuca e costas também a têm. Nada de perfeições de corpo, de cara, nem de gênio. Só de caráter. Mulher mau caráter é tão raro quanto repulsivo. O importante é mesmo ser algo errada de corpo ou de rosto. Certos erros enlevam traços ou detalhes que isolados crescem, ganham o todo, saltam da mulher e chegam até nós. Olhar em tom de súplica ajuda. Suplicar atrapalha. Mãos leves. Calmas. Mão de mulher está para nós como o surfe para a onda: por dentro e por cima, sendo levada e levando, roçando sem arranhar, arranhando sem machucar, sempre um pouco na frente. Outra coisa: carinho tem hora. Não hora marcada, porém adivinhada. Nunca logo depois. Rosto lavado de preferência. Olhar de tristeza tão antiga quanto encarnações. Lágrimas a postos. Sempre. Por favor, sem bronca com barriguinha ou descuido nosso. Nada de exigências ascéticas ou dietéticas. Mulher que se preza gosta mais de defeitos que de qualidades. Mas por favor, nunca bata boca com vizinhos. Fale de, porém não fale demais de empregadas, chefes, costureiras ou patrões. Mulher deve falar como quem pede. Pedir como quem ajuda, saber esperar. Não pode ficar falando "eu acho". E quando fumar jamais sugar o cigarro com força, aquelas tragadas que fazem um barulhinho quando o cigarro solta da boca. Há uma virada de olho pelo canto e para baixo (o popular soslaio), altamente condenável. Baixar os olhos é importante. Olhar fixo também. Não definir se o seu olhar é tédio ou mistério. Mas se for tédio avise logo que a gente se manda. Pudor é essencial. Mas um pudor velado, revelado apenas na linguagem misteriosa e eloqüente do corpo, no jeito de se sentar, encolher-se na cadeira, ou cruzar os pés. Braços cruzados em ar de necessidade, de proteção pega muito bem. Ser friorenta é necessário. Gostar de pano na cabeça, saia leve e cabelo solto. Se possível preferir o silêncio. Se não, dê a bronca e não resmungue. Gostar de eventuais pilequinhos. Não de alcoolismo. Gostar de beijo, gentileza e ser deixada cruzar a porta na frente. pisar firme é importante. Firme mas leve. Andar de quem estudou balé e guardou distante influência ajuda muito. Saber cruzar as pernas com pudor é fundamental. Mulher não deve chegar, deve aparecer. Não deve entrar e sim se aproximar. Não deve mastigar, deve diluir. Não deve engolir, deve sorver. Mar tomar leite como criança é recomendável, segurando o copo com as duas mãos. Mastigue as torradas sempre devagar, ponha pouca manteiga ou geléia no pão. Se possível fale "douze" em vez de doze. Ser daquelas que o sapato arrebenta na rua é bom. Ser das que se abaixam para consertar, jamais. "Vou botar esse cara nos eixos" é uma saudável disposição. Tentar muitos anos sem conseguir e passar a vida inteira tentanto é uma gelada. Gostar de chapéus é essencial. Sardas e pintas ajudam muito. Ar de brincadeira também. deve dormir o mais encolhida possível. E acordar solta, confiante no sono. Nas viagens é essencial cuidar da gente. E conseguir com discrição o que a timidez masculina inibe. Goste de cores. Entenda de silêncios. Tenha sempre algo escondido. Aprimore seus climas, sim, porque ser bela nada tem com ser bonita. É muito mais."
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Ver todas"O VELHO TEMA DO EU E DO OUTRO Veja se dá para entender: a gente, para a gente mesmo, é a gente. Raramente consegue ser o outro. A gente, para o outro, não é a gente, é o outro. Deve estar confuso. Tento de novo. Cada um de nós vive uma ambiguidade fundamental: ser a gente e ao mesmo tempo, ser o outro. Pra gente, a gente é a gente. Para o outro, a gente é o outro. Temos, portanto, dois estados: ser o eu de cada um de nós e ser o outro. Na vida de relação, pois temos que saber ser o ‘eu individual’ e ao mesmo tempo, aceitar funcionar em estado de alteridade (outro vem de ‘alter’), ou seja, de ‘outro’. O outro, raramente nos considera como a gente (como pessoa singular, peculiar, própria, única, desigual). Em geral, ele nos considera como o ‘outro’. Daí surgem os conflitos. Não apenas o outro em geral não nos considera como ‘a gente’. Também a gente não sabe aceitar, ou raramente aceita, ser tratado como ‘outro’. A gente quer ser tratado como a gente sabe que é, e não como o outro nos considera. A gente sempre tem esperança que o outro descubra o que a gente é. Mas isso é muito difícil, porque o outro nos vê como ‘outro’ ou como qualquer projeção dele, jamais nos vê como a gente se vê ou quer ser visto ou gostaria de ser visto. Uma relação de duas pessoas dá-se portanto, em quatro etapas: i) para Joaquim, Maria é o outro; ii) para Joaquim, Joaquim é Joaquim; iii) para Maria, Joaquim é o outro; iv) para Maria, Maria é Maria. Mas Maria quer que Joaquim não a veja como ‘o outro’ e sim como Maria. E Joaquim não quer ser visto como ‘o outro’, ele quer ser visto como Joaquim. Mas nem Maria o vê como Joaquim (e sim como ‘o outro’), nem Joaquim a vê como Maria (e sim como ‘o outro’ na pessoa dela). É essa a vontade de que nos vejam como individualidade que somos, o que nos leva a exigir talvez demais daqueles que se relacionam conosco. Eles talvez não estejam preparados (raramente estão) para nos ver como ‘eus’, como unidades próprias, como somos ou como queremos ser. Exigir dos demais que nos vejam em nossa individualidade é um fato de pouca sabedoria. Raramente eles o conseguem, porque se somos ‘eu’ para nós mesmos, somos outro para eles. Em estado de ‘eudade’ (de eu), somos uma pessoa. Em estado de alteridade, somos outra pessoa. Conseguir, sem exigir ou cobrar, porém, que o outro não nos veja como ‘o outro’ que somos para ele, mas como o ‘eu’ que somos para a gente, é ato de sabedoria. Significa saber ser nítido, saber colocar-se como pessoa e como individualidade, saber ocupar o próprio espaço sem qualquer invasão do espaço dos demais ou sem qualquer limitação do que eles são e nos agregamos, por inveja ou por admiração (coisas muito parecidas). Para tal, é mister que saibamos ver o outro não apenas como o ‘outro’, mas como o ‘eu dele’ para ele. Mais claro: significa ver o outro como ele é, na condição de ‘eu’ ou seja, de indivíduo próprio, peculiar, semelhante sim, mas desigual e não na condição de ‘outro’, que é como ele chega até nós. É no centro dessa relação que está a essência do problema da comunicação e da comunhão (que vem a ser a mesma coisa). Eu devo ser ‘eu’ para mim e para o outro. O outro deve ser o ‘eu-dele’ para mim. Eu devo aceitar ser ‘o outro’ para o outro. Mas devo desejar e conseguir ser ‘eu’ para ele. Eu, em estado de ‘eu’, devo aceitá-lo como outro. Eu, em estado de ‘outro’, devo aceitá-lo como o eu dele. Eu e ele somos ao mesmo tempo ‘eu’. Eu e ele somos ao mesmo tempo ‘ele’. Ele é ‘eu’ mas também é ele. Por isso somos, ao mesmo tempo, semelhantes e diferentes. Por isso somos irmãos. Por isso a humanidade é uma só. Por isso a igualdade humana é uma verdade, na diferença individual. E, para terminar, um outro alcance, paralelo ao principal, mas verdadeiro nas relações humanas: o outro nunca sabe direito o que ele é e representa para a gente. E a vida nos vai ensinando a ser cada vez mais sozinhos, pelo acúmulo de não correspondência daqueles que sempre nos significam algo, mas nunca o souberam ou perceberam na exata medida. Ou então, preocupados em excesso com os próprios problemas nunca atenderam ao potencial de afeto que por eles ou para eles havia em nós e foi desgastando em uso ou dispersão, já que não o souberam receber. Às vezes esse ‘outro’ é mesmo o outro. Aí é a gente que fica com o próprio gesto de amor solto no ar à espera de aceitação, entendimento e correspondência. Em ambos os casos, dói. Mas isso já é outra crônica."
"Frequentemente sou compreendido por quem não me conhece e incompreendido por quem me conhece."
"Certos graus de amor só são perceptíveis a partir da impossibilidade de se exercerem ou da ameaça de não poderem jamais vir à tona."
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