"Se o tal "amor" é impontual e imprevisível que se dane! Não adianta: as pessoas são impacientes! São e sempre vão ser! Tem gente que diz que não é... "Eu não sou ansioso, as coisas acontecem quando tem que acontecer." Mentira! Por dentro todo ser humano é igual: impaciente, sonhador, iludido... Jura de pé junto que não, mas vive sempre em busca da famosa cara metade! Pode dar o nome que quiser: amor, alma gêmea, par perfeito, a outra metade da laranja... No fim dá tudo no mesmo. Pode soar brega, cafona... Mas é a realidade. Inclusive o assunto "amor" é sempre cafonérrimo. Acredito que o status de cafona surgiu porque a grande maioria das pessoas nunca teve a oportunidade de viver um grande amor. Poucas pessoas experimentaram nesta vida a sensação de sonhar acordada, de dormir do lado do telefone, de ter os olhos brilhando, de desfilar com aquele sorriso de borboleta azul estampado no rosto."
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Mais de Luis Fernando Verissimo
Ver todas"Lerdeza A frase que o Everton mais ouvia da mãe era "levanta e vai buscar", geralmente seguida de um epíteto, como "seu preguiçoso" ou, pior, "lerdeza". Porque o que o Everton mais fazia, atirado no sofá na frente da TV na sua posição de costume (que a mãe chamava de "estrapaxado"), era pedir para lhe trazerem coisas. Uma Coca. Uns salgadinhos... - Levanta e vai buscar! - Pô, mãe. - Lerdeza! O Everton já estava com quinze anos e era uma luta convencê-lo a sair do sofá e ir fazer o que os garotos de quinze anos fazem. Correr. Jogar bola. Namorar. Ou pelo menos ir buscar sua própria Coca. - Esse menino um dia ainda vai se fundir com o sofá... Everton não queria outra coisa. Ser um homem-sofá. Um estofado humano, alimentado sem precisar sair do lugar. E sem tirar os olhos da TV. E como era filho único, e insistente, sempre conseguia que lhe trouxessem o que pedia. Quando não era a mãe, sob protestos ("Toma, lerdeza, mas é a última vez") era Marineide, a empregada de vinte e poucos anos cujo decote era a única coisa que fazia o Everton desviar os olhos da TV, e assim mesmo por poucos segundos. *** Um dia, estrapaxado no sofá, o Everton se deu conta de que estava sozinho em casa. A mãe tinha saído, o pai estava no trabalho, a Marineide de folga, e ele sem ninguém para lhe trazer uma Coca, uns chips de batata e uns Bis. Levantar-se e ir buscar estava fora de questão. Fechou os olhos e concentrou-se. Concentrou-se com força. Depois de alguns minutos, ouviu ruídos vindo da cozinha. A geladeira abrindo e fechando. Uma porta de armário abrindo e fechando. Depois silêncio. Quando abriu os olhos, a Coca, os chips e os Bis pairavam no ar, à sua frente. Ele só precisou estender a mão. No dia seguinte, Everton testou seu poder recém-descoberto na Marineide, que até hoje não sabe como a sua blusa desabotoou sozinha e seu soutien simplesmente voou longe daquele jeito, e logo na frente do menino. Everton também acendeu a TV e mudou de canais sem precisar usar o controle remoto, e fez um vaso voar pela sala só com a força do seu pensamento. Apagou a TV e ficou, atirado no sofá, refletindo sobre o que significava aquilo. Ele era um fenômeno. Tinha um poder único - fazia as coisas acontecerem apenas pela sua vontade. Contaria aos pais, claro. Eles poderiam ganhar dinheiro com seu poder. O pai saberia como. Ele se transformaria numa celebridade. Cientistas do mundo inteiro o procurariam, sua capacidade extraordinária seria usada em benefício da humanidade. No combate ao crime, por exemplo. Nas comunicações. Na medicina a distância. *** E se aquilo fosse, de alguma forma, um poder religioso? Até onde a revelação do seu dom milagroso seria um sinal de que ele tinha uma missão a cumprir na Terra? Até onde aquilo o levaria? Fosse o que fosse, uma coisa era certa. Ele teria que sair do sofá. *** - Mãe. - Ahn? - Eu quero daquelas coisinhas de queijo. E uma Coca. - Levanta e vai buscar. - Pô, mãe. - Tá bem. Mas esta é a última vez. E já a caminho da cozinha: - Lerdeza!"
"O casamento foi a maneira que a humanidade encontrou de propagar a espécie sem causar faltório na vizinhança. As tradições matrimoniais se transformaram através dos tempos e variam de cultura para cultura. Em certas sociedades primitivas o tempo gasto nas preliminares do casamento - corte, namoro, noivado, etc...- era abreviado. O macho escolhia uma fêmea, batia com um tacape na sua cabeça e a arrastava para sua caverna. Com o passar do tempo este método foi abandonado , por pressão dos buffets, das lojas de presente e das mulheres, que não admitiam um período pré-conjugal tão curto. O homem precisava aproximar-se dela, cheirar seus cabelos, grunhir no seu ouvido, mordiscar a sua orelha e só então, quando ela estivesse disraída, bater com o tacape na sua cabeça e arrastá-la para a caverna."
"Peça infantil A professora começa a se arrepender de ter concordado (”você é a única que tem temperamento para isto”) em dirigir a peça quando uma das fadinhas anuncia que precisa fazer xixi. é como um sinal. todas as fadinhas decidem que precisam, urgentemente, fazer xixi. — Está bem, mas só as fadinhas — diz a professora. — e uma de cada vez! Mas as fadinhas vão em bando para o banheiro. — Uma de cada vez! uma de cada vez! E você, onde é que pensa que vai? — Ao banheiro. — Não vai, não. — Mas tia… — Em primeiro lugar, o banheiro já está cheio. em segundo lugar, você não é fadinha, é caçador. Volte para o seu lugar. Um pirata chega atrasado e com a notícia de que sua mãe não conseguiu terminar a capa. Serve uma toalha? — Não. Você vai ser o único de capa branca. É melhor tirar o tapa-olho e ficar de anão. Vai ser um pouco engraçado, oito anões, mas tudo bem. Por que você está chorando? — Eu não quero ser anão. — Então fica de lavrador. — Posso ficar com o tapa-olho? — Pode. Um lavrador de tapa-olho, tudo bem. — Tia, onde é que eu fico? É uma margarida. — Você fica ali. A professora se dá conta de que as margaridas estão desorganizadas. — Atenção, margaridas! Todas ali. Você não. Você é coelhinho. — Mas meu nome é Margarida. — Não interessa! desculpe, a tia não quis gritar com você. atenção, coelhinhos. todos comigo. Margaridas ali, coelhinhos aqui. lavradores daquele lado, árvores atrás. árvore, tira o dedo do nariz. Onde é que estão as fadinhas? Que xixi mais demorado! — Eu vou chamar. — Fique onde está, lavrador. Uma das margaridas vai chamá-las. — Já vou. — Você não, Margarida! Você é coelhinho. Uma das margaridas. Você. Vá chamar as fadinhas. Piratas, fiquem quietos! — Tia, o que é que eu sou? Eu esqueci o que eu sou. — Você é o sol. Fica ali que depois a tia… piratas, por favor! As fadinhas começam a voltar. Com problemas. muitas se enredaram nos seus véus e não conseguem arrumá-los. Ajudam-se mutuamente mas no seu nervosismo só pioram a confusão. — Borboletas, ajudem aqui! — pede a professora. Mas as borboletas não ouvem. As borboletas estão etéreas. As borboletas fazem poses, fazem esvoaçar seus próprios véus e não ligam para o mundo. A professora, com a ajuda de um coelhinho amigo, de uma árvore e de um camponês, desembaraça os véus das fadinhas. — Piratas, parem. O próximo que der um pontapé vai ser anão. Desastre: quebrou uma ponta da lua. — Como é que você conseguiu isso? — pergunta a professora sorrindo, sentindo que o seu sorriso deve parecer demente. — Foi ela! A acusada é uma camponesa gorda que gosta de distribuir tapas entre os seus inferiores. — Não tem remédio. tira isso da cabeça e fica com os anões. — E a minha frase? A professora tinha esquecido. A lua tem uma fala. — Quem diz a frase da lua é, deixa ver… o relógio. — Quem? — O relógio. Cadê o relógio? — Ele não veio. — O quê? — Está com caxumba. — Ai, meu Deus. Sol, você vai ter que falar pela lua. Sol, está me ouvindo? — Eu? — Você, sim senhor. Você é o sol. Você sabe a fala da lua? — Me deu uma dor de barriga. — Essa não é a frase da Lua. — Me deu mesmo, tia. Tenho que ir embora. — Está bem, está bem. Quem diz a frase da lua é você. — Mas eu sou caçador. — Eu sei que você é caçador! Mas diz a frase da lua! Eu não quero discussão! — Mas eu não sei a frase da lua. — Piratas, parem! — Piratas, parem! certo? — Eu não estava falando com você. Piratas, de uma vez por todas… A camponesa gorda resolve tomar a justiça nas mãos e dá um croque num pirata. A classe unida avança contra a camponesa, que recua, derrubando uma árvore. As borboletas esvoaçam. Os coelhinhos estão em polvorosa. A professora grita: — Parem! parem! A cortina vai abrir. Todos a seus lugares. Vai começar! — Mas, tia, e a frase da lua? — “Boa-noite, sol”. — Boa-noite. — Eu não estou falando com você! — Eu não sou mais o sol? — É. Mas eu estava dizendo a frase da lua. “Boa-noite, sol.” — Boa-noite, sol. Boa-noite, sol. Não vou esquecer. Boa-noite, sol… — Atenção, todo mundo! Piratas e anões nos bastidores. Quem fizer um barulho antes de entrar em cena, eu esgoelo. Coelhinhos nos seus lugares. Árvores para trás. Fadinhas, aqui. Borboletas, esperem a deixa. Margaridas, no chão. Todos se preparam. — Você não, Margarida! Você é o coelhinho! Abre o pano."
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