"Gazel do Amor Desesperado A noite não quer vir para que tu não venhas, nem eu possa ir. Mas eu irei, inda que um sol de lacraus me coma a fronte. Mas tu virás com a língua queimada pela chuva de sal. O dia não quer vir para que tu não venhas, nem eu possa ir. Mas eu irei entregando aos sapos meu mordido cravo. Mas tu virás pelas turvas cloacas da escuridade. Nem a noite nem o dia querem vir para que por ti morra e tu morras por mim."
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Ver todas"A rosa não buscava a aurora: quase eterna no ramo buscava outra coisa. A rosa não buscava ciência nem sombra: confim de carne e sonho, buscava outra coisa. A rosa não buscava a rosa: imóvel pelo céu buscava outra coisa."
"Confusão Meu coração é teu coração? Quem me reflexa pensamentos? Quem me presta esta paixão sem raízes? Por que muda meu traje de cores? Tudo é encruzilhada! Por que vês no céu tanta estrela? Irmão, és tu ou sou eu? E estas mãos tão frias são daquele? Vejo-me pelos ocasos, e um formigueiro de gente anda por meu coração. Tradução de Oscar R. Mendes"
"ESTE É O PRÓLOGO Deixaria neste livro toda a minha alma. este livro que viu as paisagens comigo e viveu horas santas. Que pena dos livros que nos enchem as mãos de rosas e de estrelas e lentamente passam! Que tristeza tão funda é olhar os retábulos de dores e de penas que um coração levanta! Ver passar os espectros de vida que se apagam, ver o homem desnudo em Pégaso sem asas, ver a vida e a morte, a síntese do mundo, que em espaços profundos se olham e se abraçam. Um livro de poesias é o outono morto: os versos são as folhas negras em terras brancas, e a voz que os lê é o sopro do vento que lhes incute nos peitos - entranháveis distâncias. O poeta é uma árvore com frutos de tristeza e com folhas murchas de chorar o que ama. O poeta é o médium da Natureza que explica sua grandeza por meio de palavras. O poeta compreende todo o incompreensível e as coisas que se odeiam, ele, amigas as chamas. Sabe que as veredas são todas impossíveis, e por isso de noite vai por elas com calma. Nos livros de versos, entre rosas de sangue, vão passando as tristes e eternas caravanas que fizeram ao poeta quando chora nas tardes, rodeado e cingido por seus próprios fantasmas. Poesia é amargura, mel celeste que emana de um favo invisível que as almas fabricam. Poesia é o impossível feito possível. Harpa que tem em vez de cordas corações e chamas. Poesia é a vida que cruzamos com ânsia, esperando o que leva sem rumo a nossa barca. Livros doces de versos sãos os astros que passam pelo silêncio mudo para o reino do Nada, escrevendo no céu suas estrofes de prata. Oh! que penas tão fundas e nunca remediadas, as vozes dolorosas que os poetas cantam! Deixaria neste livro toda a minha alma... tradução: William Agel de Melo"
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