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"Se eu morrer novo, sem poder publicar livro nenhum Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa, Peço que, se se quiserem ralar por minha causa, Que não se ralem. Se assim aconteceu, assim está certo. Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos, Eles lá terão a sua beleza, se forem belos. Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir, Porque as raízes podem estar debaixo da terra Mas as flores florescem ao ar livre e à vista. Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir. Se eu morrer muito novo, oiçam isto: Nunca fui senão uma criança que brincava. Fui gentio como o sol e a água, De uma religião universal que só os homens não têm. Fui feliz porque não pedi cousa nenhuma, Nem procurei achar nada, Nem achei que houvesse mais explicação Que a palavra explicação não ter sentido nenhum. Não desejei senão estar ao sol ou à chuva - Ao sol quando havia sol E à chuva quando estava chovendo (E nunca a outra cousa), Sentir calor e frio e vento, E não ir mais longe. Uma vez amei, julguei que me amariam, Mas não fui amado. Não fui amado pela única grande razão - Porque não tinha que ser. Consolei-me voltando ao sol e a chuva, E sentando-me outra vez a porta de casa. Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados Como para os que o não são. Sentir é estar distraído."

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"MARIA: Amo como o amor ama. Não sei razão pra amar-te mais que amar-te. Que queres que te diga mais que te amo, Se o que quero dizer-te é que te amo? Não procures no meu coração... Quando te falo, dói-me que respondas Ao que te digo e não ao meu amor. Quando há amor a gente não conversa: Ama-se, e fala-se para se sentir. Posso ouvir-te dizer-me que tu me amas, Sem que mo digas, se eu sentir que me amas. Mas tu dizes palavras com sentido, E esqueces-te de mim; mesmo que fales Só de mim, não te lembras que eu te amo. Ah, não perguntes nada, antes me fala De tal maneira, que, se eu fora surda, Te ouvisse toda com o coração. Se te vejo não sei quem sou; eu amo. Se me faltas, (...) Mas tu fazes, amor, por me faltares Mesmo estando comigo, pois perguntas Quando deves amar-me. Se não amas, Mostra-te indiferente, ou não me queiras, Mas tu és como nunca ninguém foi, Pois procuras o amor pra não amar, E, se me buscas, é como se eu só fosse O Alguém pra te falar de quem tu amas. Diz-me porque é que o amor te faz ser triste? Canso-te? Posso eu cansar-te se amas? Ninguém no mundo amou como tu amas. Sinto que me amas, mas que a nada amas, E não sei compreender isto que sinto. Dize-me qualquer palavra mais sentida Que essas palavras que, como se as perderas, buscas E encontras cinzas. Quando te vi, amei-te já muito antes. Tornei a achar-te quando te encontrei. Nasci pra ti antes de haver o mundo. Não há coisa feliz ou hora alegre Que eu tenha tido pela vida fora, Que não o fosse porque te previa, Porque dormias nela tu futuro, E com essas alegrias e esse prazer Eu viria depois a amar-te. Quando, Criança, eu, se brincava a ter marido, Me faltava crescer e o não sentia, O que me satisfazia eras já tu, E eu soube-o só depois, quando te vi, E tive para mim melhor sentido, E o meu passado foi como uma estrada Iluminada pela frente, quando O carro com lanternas vira a curva Do caminho e já a noite é toda humana. Tens um segredo? Dize-mo, que eu sei tudo De ti, quando m'o digas com a alma. Em palavras estranhas que m'o fales, Eu compreenderei só porque te amo. Se o teu segredo é triste, eu saberei Chorar contigo até que o esqueças todo. Se o não podes dizer, dize que me amas, E eu sentirei sem qu'rer o teu segredo. Quando eu era pequena, sinto que eu Amava-te já hoje, mas de longe, Como as coisas se podem ver de longe, E ser-se feliz só por se pensar Em chegar onde ainda se não chega. Amor, diz qualquer coisa que eu te sinta! FAUSTO: Compreendo-te tanto que não sinto. Oh coração exterior ao meu! Fatalidade filha do destino E das leis que há no fundo deste mundo! Que és tu a mim que eu compreenda ao ponto De o sentir...? MARIA: Para que queres compreender Se dizes qu'rer sentir?"

"Tantas vezes, tantas, como agora, me tem pesado sentir que sinto – sentir como angústia só por ser sentir, a inquietação de estar aqui, a saudade de outra coisa que se não conheceu, o poente de todas as emoções… Ah, quem me salvará de existir? Não é a morte que quero, nem a vida: é aquela outra coisa que brilha no fundo da ânsia…"

"Ama como ama o amor"

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