"Se às vezes eu disser que as flores sorriem E se eu disser que os rios cantam Não é porque eu julgue que há sorriso nas flores E cantos no correr dos rios. É porque assim faço, mais sentir aos homens falsos A existência verdadeiramente real das flores e dos rios. Porque eu escrevo para eles me lerem, sacrifica-me às vezes, À sua estupidez de sentidos. Não concordo comigo mas absolvo-me, Por que eu sou só essa coisa séria uma intérprete da natureza, Porque os homens não percebem a sua linguagem, Por ela não ser linguagem nenhuma."
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Ver todas"Porque é que um sono agita Em vez de repousar O que em minha alma habita E a faz não descansar? Que externa sonolência, Que absurda confusão, Me oprime sem violência Me faz ver sem visão? Entre o que vivo e a vida, Entre quem estou e sou, Durmo numa descida, Descida em que não vou. E, num infiel regresso Ao que já era bruma, Sonolento me apresso Para coisa nenhuma."
"AUTOPSICOGRAFIA O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. E os que lêem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm. E assim nas calhas da roda Gira, a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama o coração."
"Os meus pensamentos são contentes. Só tenho pena de saber que eles são contentes, Porque, se o não soubesse, Em vez de serem contentes e tristes, Seriam alegres e contentes"
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