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"O poeta aprendiz Ele era um menino Valente e caprino Um pequeno infante Sadio e grimpante. Anos tinha dez E asinhas nos pés Com chumbo e bodoque Era plic e ploc. O olhar verde-gaio Parecia um raio Para tangerina Pião ou menina. Seu corpo moreno Vivia correndo Pulava no escuro Não importa que muro E caía exato Como cai um gato. No diabolô Que bom jogador Bilboquê então Era plim e plão. Saltava de anjo Melhor que marmanjo E dava o mergulho Sem fazer barulho. No fundo do mar Sabia encontrar Estrelas, ouriços E até deixa-dissos. Às vezes nadava Um mundo de água E não era menino Por nada mofino Sendo que uma vez Embolou com três. Sua coleção De achados do chão Abundava em conchas Botões, coisas tronchas Seixos, caramujos Marulhantes, cujos Colocava ao ouvido Com ar entendido Rolhas, espoletas E malacachetas Cacos coloridos E bolas de vidro E dez pelo menos Camisas-de-vênus. Em gude de bilha Era maravilha E em bola de meia Jogando de meia – Direita ou de ponta Passava da conta De tanto driblar. Amava era amar. Amava sua ama Nos jogos de cama Amava as criadas Varrendo as escadas Amava as gurias Da rua, vadias Amava suas primas Levadas e opimas Amava suas tias De peles macias Amava as artistas Das cine-revistas Amava a mulher A mais não poder. Por isso fazia Seu grão de poesia E achava bonita A palavra escrita. Por isso sofria. Da melancolia De sonhar o poeta Que quem sabe um dia Poderia ser. Montevidéu, 02.11.1958 in Para viver um grande amor (crônicas e poemas) in Poesia completa e prosa: "A lua de Montevidéu" in Poesia completa e prosa: "Cancioneiro""

"Rancho das flores Vinicius de Moraes com música de J.S.Bach da Cantata 147, Jesus, alegria dos homens Entre as prendas com que a natureza Alegrou este mundo onde há tanta tristeza A beleza das flores realça em primeiro lugar É um milagre do aroma florido Mais lindo que todas as graças do céu E até mesmo do mar Olhem bem para a rosa Não há mais formosa É flor dos amantes É rosa-mulher Que em perfume e em nobreza Vem antes do cravo E do lírio e da Hortência E da dália e do bom crisântemo E até mesmo do puro e gentil malmequer E reparem no cravo o escravo da rosa Que é flor mais cheirosa De enfeite sutil E no lírio que causa o delírio da rosa O martírio da alma da rosa Que é a flor mais vaidosa e mais prosa Entre as flores do nosso Brasil Abram alas pra dália garbosa Da cor mais vistosa Do grande jardim da existência das flores Tão cheias de cores gentis E também para a Hortência inocente A flor mais contente No azul do seu corpo macio e feliz Satisfeita da vida Vem a margarida Que é a flor preferida dos que tem paixão E agora é a vez da papoula vermelha A que dá tanto mel pras abelhas E alegra este mundo tão triste No amor que é o meu coração E agora que temos o bom crisântemo Seu nome cantemos em verso e em prosa Porém que não tem a beleza da rosa Que uma rosa não é só uma flor Uma rosa é uma rosa, é uma rosa É a mulher rescendendo de amor"

"Nada renasce antes que se acabe. E o sol que desponta tem que anoitecer."

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