"Você sabe que vai ser sempre assim. Que essa queda não é a última."
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"PELA PASSAGEM DE UMA GRANDE DOR (Ao som de Erik Satie) A primeira vez que o telefone tocou ele não se moveu. Continuou sentado sobre a velha almofada amarela, cheia de pastoras desbotadas com coroas de flores nas mãos. As vibrações coloridas da televisão sem som faziam a sala tremer e flutuar, empalidecida pelo bordô mortiço da cor de luxe de um filme antigo qualquer. Quando o telefone tocou pela segunda vez ele estava tentando lembrar se o nome daquela melodia meio arranhada e lentíssima que vinha da outra sala seria mesmo “Desespero agradável” ou “Por um desespero agradável”. De qualquer forma, pensou, desespero. E agradável. A luz de mercúrio da rua varava os orifícios das cortinas de renda misturando-se, azulada, à cor meio decomposta do filme. Pouco antes do telefone tocar pela terceira vez ele resolveu levantar-se — conferir o nome da música, disse para si mesmo, e caminhou para dentro atravessando o pequeno corredor onde, como sempre, a perna da calça roçou contra a folha rajada de uma planta. Preciso trocá-la de lugar, lembrou, como sempre. E um pouco antes ainda de estender a mão para pegar o telefone na estante, inclinou-se sobre as capas de discos espalhadas pelo chão, entre um cinzeiro cheio e um caneco de cerâmica crua quase vazio, a não ser por uns restos no fundo, que vistos assim de cima formavam uma massa verde, úmida e compacta. “Désespoir agréable”, confirmou. Ainda em pé, colocou a capa branca do disco sobre a mesa enquanto repetia mentalmente: de qualquer forma, desespero. E agradável. — Lui? — A voz conhecida. — Alô? É você, Lui? — Eu — ele disse. — O que é que você está fazendo? Ele sentou-se. Depois estendeu o braço em frente ao rosto e olhou a palma aberta da própria mão. As pequenas áreas descascadas, ácido úrico, diziam, corroendo lento a pele. — Alô? Você está me ouvindo? — Oi — ele disse. Perguntei o que é que você estava fazendo? — Fazendo? Nada. Por aí, ouvindo música, vendo tevê. — Fechou a mão. — Agora ia fazer um café. E dormir. Hein? Fala mais alto. — Mas não sei se tem pó. —O quê? — Nada, bobagem. E você? Do outro lado da linha, ela suspirou sem dizer nada. Então houve um silêncio curto e em seguida um clique seco e uma espécie de sopro. Deve ter acendido um cigarro, ele pensou. Dobrou mecanicamente o corpo para a esquerda até trazer o cinzeiro cheio de pontas para o lado do telefone. — Que que houve? — perguntou lento, olhando em volta à procura de um maço de cigarros. — Escuta, você não quer dar uma saída? — Estou cansado. Não tenho cabeça. E amanhã preciso acordar muito cedo. — Mas eu passo aí com o carro. Depois deixo você de novo. A gente não demora nada. Podia ir a um bar, a um cinema, a um. — Já passa das dez — ele disse. A voz dela ficou um pouco mais aguda. — E vir aqui, quem sabe. Também você não quer, não é? Tenho uma vodca ótima. Daquelas. Você adora, nem abri ainda. Só não tenho limão, você traz? — A voz ficou subitamente tão aguda que ele afastou um pouco o fone do ouvido. Por um momento ficou ouvindo a melodia distante, lenta e arranhada do piano. Através dos vidros da porta, com a luz acesa nos fundos, conseguia ver a copa verde das plantas no jardim, algumas folhas amareladas caídas no chão de cimento. Sem querer, quase estremeceu de frio. Ou uma espécie de medo. Esfregou a palma seca da mão esquerda contra a coxa. A voz dela ficou mais baixa quando perguntou: — E se eu fosse até aí? Os dedos dele tocaram o maço de cigarros no bolso da calça. Ele contraiu o ombro direito, equilibrando o fone contra o rosto, e puxou devagar o maço. — Sabe o que é — disse. —Lui? Com os dentes, ele prendeu o filtro de um dos cigarros. Mordeu-o, levemente. — Alô, Lui? Você está aí? Ele contraiu mais o ombro para acender o cigarro. O fone quase se desequilibrou. Tragou fundo. Tornou a pegar o fone com a mão e soltou pouco a pouco o ombro dolorido soprando a fumaça. — Eu já estava quase dormindo. — Que música é essa aí no fundo? — ela perguntou de repente. Ele puxou o cinzeiro para perto. Virou a capa do disco nas mãos. — Chama-se “Por um desespero agradável” — mentiu. — Você gosta? — Não sei. Acho que dá um pouco de sono. Quem é? Ele bateu o cigarro três vezes na borda do cinzeiro, mas não caiu nenhuma cinza. — Um cara aí. Um doido. — Como ele se chama? — Erik Satie — ele disse bem baixo. Ela não ouviu. — Lui? Alô, Lui? — Digue. — Estou te enchendo o saco? — Outra vez ele escutou o silêncio curto, o clique seco e o sopro leve. Deve ter acendido outro cigarro, pensou. E soprou a fumaça. — Não — disse. — Estou te enchendo? Fala. Eu sei que estou. — Tudo bem, eu não estava mesmo fazendo nada. — Não consigo dormir — ela disse muito baixo. — Você está deitada? — É, lendo. Aí me deu vontade de falar com você. Ele tragou fundo. Enquanto soprava a fumaça, curvou outra vez o corpo para apanhar o caneco de cerâmica. Enfiou o indicador até o fundo, depois mordiscou as folhas miúdas com os incisivos e perguntou: — O que é que você estava lendo? — Nada, não. Uma matéria aí numa revista. Um negócio sobre monoculturas e sprays. — What about? —Hein? — O que você estava lendo. Ela tossiu. Depois pareceu se animar. — Umas coisas assim, ecologias, sabe? Diz que se você só planta uma espécie de coisa na terra por muitos anos, ela acaba morrendo. A terra, não a coisa plantada, entende? Soja, por exemplo. Diz que acaba a camada de húmus. Parece que eucalipto também. Depois aos poucos vira deserto. Vão ficando uns pontos assim. Vazios, entende? Desérticos. Espalhados por toda a terra. O disco acabou, ele não se mexeu. Depois, recomeçou. — Assim como se você pingasse uma porção de gotas de tinta num mata-borrão — ela continuou. — Eles vão se espalhando cada vez mais. Acabam se encontrando uns com os outros um dia, entende? O deserto fica maior. Fica cada vez maior. Os desertos não param nunca de crescer, sabia? — Sabia — ele disse. — Horrível, não? — E os sprays? —O quê? — Os sprays. O que é que tem os sprays? — Ah, pois é. Foi na mesma revista. Diz que cada apertada que você dá assim num tubo de desodorante. Não precisa ser desodorante, qualquer tubo, entende? Faz assim ah, como é que eu vou dizer? Um furo, sabe? Um rombo, um buraco na camada de como é mesmo que se diz? — Ozônio — ele disse. — Pois é, ozônio. O ar que a gente respira, entende? A biosfera. — Já deve estar toda furadinha então — ele disse. —O quê? — Deve estar toda furada — ele repetiu bem devagar. — A camada. A biosfera. O ozônio. — Já pensou que horror? Você sabia disso Lui? Ele não respondeu. — Alô, Lui? Você ainda está aí? — Estou. — Acho que fiquei meio horrorizada. E com medo. Você não tem medo, Lui? — Estou cansado. Do outro lado da linha, ela riu. Pelo som, ele adivinhou que ela ria sem abrir a boca, apenas os ombros sacudindo, movendo a cabeça para os lados, alguns fios de cabelo caídos nos olhos. — Não estou te alugando? — ela perguntou. — Você sempre diz que eu te alugo. Como se você fosse um imóvel, uma casa. Eu, se fosse uma casa, queria uma piscina nos fundos. Um jardim enorme. E ar-condicionado. Que tipo de casa você queria ser, Lui? — Eu não queria ser casa. - Como? — Queria ser um apartamento. — Sei, mas que tipo? Ele suspirou: — Uma quitinete. Sem telefone. — O quê? Alô, Lui? Você não ia mesmo fazer nada? — Um chá, eu ia fazer um chá. — Não era café? Me lembro que você falou que ia fazer café. — Não tem mais pó. — Ele lambeu a ponta do indicador, depois umedeceu o nariz por dentro. Então sacudiu o cinzeiro cheio de pontas queimadas e cinza. Algumas partículas voaram, caindo sobre a capa branca do disco, com um desenho abstrato no centro. Com cuidado, juntou-as num montinho sobre o canto roxo da figura central. — Nem coador de papel. E acabei de me lembrar que tenho um chá incrível. Tem até uma bula louquíssima, quer ver? Guardei aqui dentro. — Ele equilibrou o fone com o ombro e abriu a cadernetinha preta de endereços. — Chá não tem bula — ela resmungou. Parecia aborrecida, meio infantil. — Bula é de remédio. — Tem sim, esse chá tem. Quer ver só? — Entre duas fotos polaroid desbotadas, na contracapa da caderneta, encontrou o retângulo de papel amarelo dobrado em quatro. — Lui? Você não quer mesmo vir até aqui? Sabe — ela tornou a rir, e desta vez ele imaginou que quase escancarava a boca, passando devagar a língua pelos lábios ressecados de cigarro —, eu acho que fiquei meio impressionada com essa história dos desertos, dos buracos, do ozônio. Lui, você acha que o mundo está mesmo no fim? Ele desdobrou sobre a mesa o papel amarelo, ao lado das duas fotos tão desbotadas quanto as manchas redondas de xícaras quentes na madeira escura. Uma das fotos era de uma mulher quase bonita, cabelos presos e brincos de ouro em forma de rosas miudinhas. A outra era de um rapaz com blusa preta de gola em V, o rosto apoiado numa das mãos, leve estrabismo nos olhos escuros. — Sem falar nas usinas nucleares — ele disse. E com a ponta dos dedos, do canto roxo do desenho na capa do disco, foi empurrando o montículo de cinzas por cima das formas torcidas, marrom, amarelo, verde, até o espaço branco e, por fim, exatamente sobre o rosto do rapaz da foto. — Lui? — ela chamou inquieta. — Encontrou o negócio do tal chá? — Encontrei. — Você está esquisito. O que é que há? — Nada. Estou cansado, só isso. Quer ver o que diz a bula? É inglês, você entende um pouco, não é? — Ela não respondeu. Então ele leu, dramático: —... is exceilent for ali types of nervous disorders, paranoia, schizophrenia, drugs effects, digestive problems, hornionai diseases and other disorders... — Começou a rir baixinho, divertido: — Entendeu? — Entendi — ela disse. — É um inglês fácil, qualquer um entende. Porreta esse chá, hein? É inglês? Ele continuou rindo: — Chinês. Aqui embaixo diz produced in China. — Com a cinza, cobriu todo o olho estrábico do rapaz. — Drugs effects é ótimo, não é? — Maravilhoso — ela falou. — O disco tá tocando de novo, já ouvi esse. — Tá bom — ela disse. — Tá bom — ele repetiu. E pensou que quando começavam a falar desse jeito sempre era um sinal tácito para algum desligar. Mas não quis ser o primeiro. — Vou tirar amanhã — ela falou de repente. — Hein? — Nada. Vai fazer teu chá. — Tá bom. Aqui diz também que tem vitamina E. — Abriu a mão e olhou as manchas branquicentas na palma. — Não é essa que é boa para a pele? — Acho que aquela é a A. Não entendo muito de vitaminas. — Nem eu. A C eu sei que é a da gripe, todo mundo sabe. Qual será a que cura os tais drugs effects? Cheirei todas hoje. Estou com aquele... vazio intenso, sabe como? — Não sei. — De repente ela parecia apressada. — Vou desligar. — Você ligou o rádio? — Ainda não. Como é mesmo o nome dessa música? — “Por um desespero agradável” — ele mentiu outra vez, depois corrigiu: — Não. É só “Desespero agradável”. — Agradável? — É, agradável. Por que não? — Engraçado. Desespero nunca é agradável. — Às vezes sim. Cocaína, por exemplo. — Você só pensa nisso? — Não, penso em fazer um chá também. — Hein? — Mas essa que tá tocando agora é outra, ouça. — Ele ergueu um momento o fone no ar em direção às caixas de som e ficou um momento assim, parado. — São todas muito parecidas. Só piano, mais nada. — A cinza cobria o rosto inteiro do rapaz na foto. — Essa agora chama-se “À l’occasion d’une grande peine”. — Sei. — É francês. — Sei. — Pena, dor. Não pena de galinha. Uma grande dor. Occasion acho que é ocasião mesmo. Mas podia ser passagem. Melhor, você não acha? Passagem parece que já vai embora, que já vai passar. O que é que você acha? — Vou ver se durmo. — Ela bocejou. — Francês, inglês, chá chinês. Você hoje está internacional demais para o meu gabarito. — Escapismo — ele disse. E acendeu outro cigarro. — Uma pena que você não queira mesmo sair. — A voz dela parecia mais longe. — Estou pensando em abrir mesmo aquela garrafa de vodca. — Antes de dormir? — ele falou. — Toma leite morno, dá sono. Põe bastante canela. E mel, açúcar faz mal. — Mal? Logo quem falando... — Faça o que eu digo, não faça o que eu. A cinza descia pelo pescoço, quase confundida com o preto da gola. A voz dela soava um tanto irônica, quase ferina. — Ué, agora você resolveu cuidar de mim, é? — Vou fazer meu chá — ele disse. — Como é mesmo que se pronuncia? Esquizôfrenia? — Não, é squizofrênia. Tem acento nesse e aí. E se escreve com esse, cê, agá. Depois tem também um pê e outro agá. Tem dois agás. — E nenhum ipsilone? Nenhum dábliu? — ela perguntou como se estivesse exausta. E amarga. — Adoro ipsilones, dáblius e cás. Tão chique. — D ‘accord — ele disse. — Mas não tem nenhum. — Tá bom — ela riu sem vontade. Em seguida disse tchau, até mais, boa-noite, um beijo, e desligou. Ele abriu a boca, mas antes de repetir as mesmas coisas ouviu o clique do fone sendo colocado no gancho do outro lado da cidade. O disco chegara novamente ao fim, mas antes que recomeçasse ele curvou-se e desligou o som. Em pé, ao lado da mesa, amarfanhou o papel amarelo e jogou-o no cinzeiro. Depois soprou as cinzas do rosto do rapaz. Algumas partículas caíram sobre a foto da mulher. Andou então até o pequeno corredor, curvou-se sobre a planta e com a brasa do cigarro fez um furo redondo na folha. Respirou fundo sem sentir cheiro algum. A sala continuava mergulhada naquela penumbra bordô, baça, moribunda, a almofada fosforescendo estranhamente esverdeada à luz azul de mercúrio. Ele fez um movimento em direção ao telefone. Chegou a avançar um pouco, como se fosse voltar. Mas não se moveu. Imóvel assim no meio da casa, o som desligado e nenhum outro ruído, era possível ouvir o vento soprando solto pelos telhados."
"... mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço..."
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