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Rubem Braga

Rubem Braga

Biografia Completa

Introdução

Rubem Braga destaca-se como um dos cronistas mais influentes da literatura brasileira do século XX. Nascido em 2 de julho de 1913, em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, ele transformou a crônica jornalística em gênero literário acessível e profundo. Sua escrita, marcada pela simplicidade coloquial e pelo olhar atento ao cotidiano, retratou o Rio de Janeiro com sensibilidade única. Braga trabalhou em veículos como O Globo, Diário de Notícias e Última Hora, onde publicou milhares de crônicas. Sua experiência como correspondente de guerra na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial, adicionou camadas de maturidade à sua prosa. Eleito em 1966 para a cadeira nº 5 da Academia Brasileira de Letras (ABL), Braga faleceu em 27 de dezembro de 1990, no Rio de Janeiro, deixando um legado de mais de 20 livros de crônicas. Sua relevância persiste na valorização da crônica como forma de registrar o efêmero da vida urbana brasileira.

Origens e Formação

Rubem Braga nasceu em uma família de classe média no interior do Espírito Santo. Cachoeiro de Itapemirim, sua cidade natal, era um centro cafeeiro modesto, que influenciou suas primeiras impressões do mundo rural e provinciano. Seu pai, um advogado, e sua mãe, dona de casa, proporcionaram educação básica sólida. Aos 16 anos, em 1929, Braga mudou-se para o Rio de Janeiro, então capital federal, em busca de oportunidades. Matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, mas abandonou o curso sem se formar, atraído pelo jornalismo.

Iniciou a carreira aos 18 anos, em 1931, como repórter no jornal A Noite. Ali, cobria fatos policiais e sociais, desenvolvendo o estilo observador que o definiria. Influenciado pelo modernismo brasileiro – especialmente por Manuel Bandeira e João do Rio –, Braga absorveu a ênfase no cotidiano e na linguagem falada. Nos anos 1930, colaborou com O Globo e Jornal do Brasil, refinando sua voz irônica e sensível. Essa formação autodidata, aliada à efervescência cultural carioca, moldou seu ofício como cronista.

Trajetória e Principais Contribuições

A trajetória de Rubem Braga divide-se em fases marcadas por jornais e livros. Nos anos 1930 e 1940, consolidou-se como repórter. Em 1944, enviada pelo Diário de Notícias à Itália como correspondente da Força Expedicionária Brasileira (FEB), foi preso pelos nazistas em 1944, experiência relatada em crônicas como as de Reporte das Sombras (compiladas depois). Libertado após meses, retornou com relatos vívidos da guerra, que humanizavam o conflito.

De volta ao Brasil, uniu-se a Última Hora, de Samuel Wainer, em 1951, onde brilhou com crônicas diárias. Seu primeiro livro, Ai de ti, Copacabana (1944), reuniu textos sobre a praia carioca, misturando humor, melancolia e erotismo. Seguiram-se A orquídea do gato (1949), com observações felinas e amorosas; Esquema da Providência (1955); e O homem nu (1960). Braga publicou cerca de 25 livros, totalizando milhares de crônicas.

Seus textos exploravam o Rio de Janeiro: botequins, amores fugazes, chuvas e personagens marginais. Inovou ao usar primeira pessoa, linguagem oral e parágrafos curtos, democratizando a literatura. Em 1966, sucedeu Otávio Tarquínio de Sousa na ABL, onde defendeu a crônica como arte menor elevada a maior. Nos anos 1970 e 1980, continuou produtivo, com obras como As meninas e eu (1977). Sua contribuição reside na elevação do jornalismo literário, influenciando cronistas como Rachel de Queiroz e Luis Fernando Verissimo.

  • Marcos cronológicos principais:
    • 1931: Estreia no jornalismo em A Noite.
    • 1944: Publica Ai de ti, Copacabana e vai à guerra.
    • 1949: Lança A orquídea do gato.
    • 1951: Entra na Última Hora.
    • 1966: Ingressa na ABL.
    • 1990: Morte, aos 77 anos.

Vida Pessoal e Conflitos

Rubem Braga viveu intensamente o Rio de Janeiro, com uma vida boêmia repleta de amores e amizades. Casou-se três vezes: primeiro com Eliana Xavier de Andrade, com quem teve dois filhos, mas o casamento terminou em divórcio. Em 1945, uniu-se a Joana Duarte (conhecida como Joana Schilling), com quem manteve relação duradoura até a morte dela em 1983; desse união nasceram mais filhos. Teve romances notórios, incluindo com a escritora Zelia Gattai, retratados em crônicas leves e autodepreciativas.

Conflitos marcaram sua carreira. Durante o Estado Novo (1937-1945), enfrentou censura como jornalista oposicionista a Getúlio Vargas. Sua prisão na Itália gerou trauma, refletido em textos sobre solidão e medo. Nos anos 1950, disputas políticas na imprensa – como a rivalidade entre Última Hora e O Globo – o obrigaram a mudar de veículos. Braga fumava muito e bebia socialmente, hábitos que afetaram sua saúde no fim da vida, culminando em enfisema pulmonar. Apesar disso, manteve tom otimista, evitando vitimismo em suas narrativas pessoais.

Legado e Relevância Atual (até 2026)

O legado de Rubem Braga reside na crônica como espelho da alma brasileira. Sua obra, reeditada continuamente, inspira jornalistas e escritores contemporâneos. Até 2026, antologias como Crônicas completas (Companhia das Letras, 2007-2010) mantêm-no vivo em listas de mais vendidos e currículos escolares. Influenciou o jornalismo literário moderno, visto em colunistas como Miriam Leitão e Zuenir Ventura. A ABL preserva sua cadeira, e homenagens como o Prêmio Rubem Braga de Crônica (criado em 1991) perpetuam seu nome. Em um mundo digital, suas observações sobre o efêmero ganham nova ressonância, destacando a atemporalidade do cotidiano carioca. Pesquisas acadêmicas, como teses sobre o modernismo periférico, analisam sua contribuição à identidade nacional. Braga permanece referência para quem valoriza a escrita acessível e humanista.

Pensamentos de Rubem Braga

Algumas das citações mais marcantes do autor.

"É flor! É inacreditavel como a mulher se parece com a flor. Fixemos uma flor. Sabemos o que é, como nasceu, e que morrerá. Mas nossa botânica não explica a frescura desse milagre; nem muito menos porque nos emociona. Podemos passar diante de uma casa de flores, e ver, e achar belas as flores. Mas a flor que de repente nasce no muro familiar, que adianta prová-la? É uma aparição; algo que traz do fundo da terra uma inesperada palavra de candor. Parece dizer: eis-me aqui. E não é apenas a brisa que a estremece: é a vida."
"-O pombo- Vinícius de Moraes contava ter ouvido de uma sua tia-avó, senhora idosa muito boazinha, que um dia ela estava na sala de jantar, em sua casa do interior, quando um lindo pombo pousou na janela. A senhora foi se aproximando devagar e conseguiu pegar a ave. Viu então que em uma das patas havia um anel metálico onde estavam escritas umas coisas. — Era um pombo-correio, titia. Pois é. Era muito bonitinho e mansinho mesmo. Eu gosto muito de pombo. — E o que foi que a senhora fez? A senhora olhou Vinícius com ar de surpresa, como se a pergunta lhe parecesse pueril: — Comi, uai."
"O Pavão Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d'água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas. Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade. Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico."
"A Outra Noite Outro dia fui a São Paulo e resolvi voltar à noite, uma noite de vento sul e chuva, tanto lá como aqui. Quando vinha para casa de táxi, encontrei um amigo e o trouxe até Copacabana; e contei a ele que lá em cima, além das nuvens, estava um luar lindo, de lua cheia; e que as nuvens feias que cobriam a cidade eram, vistas de cima, enluaradas, colchões de sonho, alvas, uma paisagem irreal. Depois que o meu amigo desceu do carro, o chofer aproveitou o sinal fechado para voltar-se para mim: -O senhor vai desculpar, eu estava aqui a ouvir sua conversa. Mas, tem mesmo luar lá em cima? Confirmei: sim, acima da nossa noite preta e enlamaçada e torpe havia uma outra - pura, perfeita e linda. -Mas, que coisa... Ele chegou a pôr a cabeça fora do carro para olhar o céu fechado de chuva. Depois continuou guiando mais lentamente. Não sei se sonhava em ser aviador ou pensava em outra coisa. -Ora, sim senhor... E, quando saltei e paguei a corrida, ele me disse um "boa noite" e um "muito obrigado ao senhor" tão sinceros, tão veementes, como se eu lhe tivesse feito um presente de rei."
"O Desaparecido Tarde fria, e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de antigamente que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria, e então eu sinto uma saudade muito grande, uma saudade de noivo, e penso em ti devagar, bem devagar, com um bem-querer tão certo e limpo, tão fundo e bom que parece que estou te embalando dentro de mim. Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas, bobagens para todo mundo me achar ridículo e talvez alguém pensar que na verdade estou aproveitando uma crônica muito antiga num dia sem assunto, uma crônica de rapaz; e, entretanto, eu hoje não me sinto rapaz, apenas um menino, com o amor teimoso de um menino, o amor burro e comprido de um menino lírico. Olho-me no espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos nítido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desaparecido que a família procura em vão. Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de uma página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma distante esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor."