Introdução
José Datrino, mais conhecido como Profeta Gentileza, marcou a cultura brasileira com sua pregação itinerante e intervenções artísticas urbanas. Nascido em 11 de abril de 1917, em Café da Roça, Paraíba do Sul, no interior do Rio de Janeiro, ele adotou o apelido após uma experiência mística em 1961. Sua figura barbuda, vestida de branco e com um cajado, tornou-se ícone das ruas cariocas.
Gentileza pregava amor, paz e crítica à hipocrisia social por meio de frases pintadas em pilastras do Viaduto do Caju, no Rio de Janeiro, entre os anos 1970 e 1980. Frases como "Gentileza gera gentileza" e alertas contra o consumismo ganharam fama nacional. Sua trajetória reflete a busca por uma espiritualidade acessível, influenciada por visões religiosas. Até sua morte em 29 de novembro de 1996, ele viveu como andarilho, rejeitando bens materiais. Seu legado persiste em restaurações artísticas e referências culturais, simbolizando resistência poética na metrópole.
Origens e Formação
José Datrino nasceu em uma família de imigrantes italianos. Seu pai, italiano, trabalhava na agricultura na região serrana do Rio de Janeiro. A infância transcorreu em Café da Roça, uma área rural modesta. Pouco se sabe sobre sua educação formal, mas ele aprendeu ofícios práticos desde jovem.
Na idade adulta, Datrino migrou para áreas urbanas. Tornou-se caminhoneiro, profissão que o levou a viajar pelo Brasil. Essa rotina expôs-o a diversas realidades sociais e regionais. Casou-se e teve filhos, mantendo uma vida familiar convencional até os 44 anos. Não há registros de formação acadêmica ou religiosa formal. Sua "formação" veio da experiência de vida e do trabalho braçal.
Em 1961, o incêndio no Gran Circo Norte-Americano, em Niterói, mudou tudo. O desastre matou 503 pessoas, principalmente crianças. Datrino, presente no local, ajudou nos resgates. Ali, ele relatou ter recebido visões de 22 entidades espirituais, chamadas "Anjo 11x2". Essa experiência o convenceu a abandonar a família e o emprego. Ele rasfou a barba, vestiu-se de branco e iniciou uma peregrinação como profeta.
Trajetória e Principais Contribuições
A partir de 1961, Gentileza peregrinou pelo Brasil. Caminhou milhares de quilômetros, pregando em praças e estradas. Suas mensagens enfatizavam gentileza como antídoto à violência e ao materialismo. Ele criticava bancos, igrejas e políticos, chamando-os de "falsários" ou "mercadores do templo".
Nos anos 1970, fixou-se no Rio de Janeiro. Entre 1970 e 1980, pintou cerca de 56 pilastras do Viaduto do Caju, na Zona Portuária. Usou tinta guache colorida para escrever frases poéticas e proféticas. Exemplos incluem: "O BRASIL É O PAÍS DA GENTILEZA", "FORA OS FALSÁRIOS DO TEMPLO" e "MULHER É O SEXO FRÁGIL? NÃO, FRÁGIL É O HOMEM". Essas pinturas ocupavam grandes painéis, visíveis do trânsito intenso.
Gentileza financiava sua arte com doações de transeuntes. Ele carregava um megafone para amplificar pregações. Sua obra misturava espiritualidade cristã, elementos espíritas e crítica social. Em 1980, as pilastras foram demolidas pela prefeitura para obras viárias, mas ele documentou tudo em cadernos.
Na década de 1980, continuou ativo. Morou em abrigos e sob viadutos. Em 1990, participou de eventos culturais. Sua imagem apareceu em jornais e TVs, como no programa "Fantástico" da Rede Globo. Ele compôs hinos e poemas, recitados em público.
Em 1993, as pinturas foram restauradas por iniciativa cultural, liderada pelo artista Paulo Lemos. Gentileza supervisionou o trabalho. Essa ação preservou sua obra principal.
Vida Pessoal e Conflitos
Gentileza abandonou a esposa e os seis filhos após 1961. A família o considerava vivo, mas distante. Ele vivia de esmolas e recusava emprego fixo, alegando missão divina. Dormia em ruas ou doações de simpatizantes.
Enfrentou hostilidades. Policiais o detiveram por vadiagem. Bandidos o agrediram. Apesar disso, mantinha postura pacífica. Criticava o catolicismo oficial, chamando padres de "falsários", o que gerou atritos com religiosos.
Sua saúde declinou nos anos 1990. Sofria de problemas respiratórios e desnutrição. Em 1996, internado em Guapimirim, RJ, faleceu aos 79 anos por insuficiência respiratória. O enterro ocorreu sem cerimônia religiosa formal.
Conflitos internos giravam em torno de sua visão mística. Ele se via como profeta bíblico, comparando-se a João Batista. Não há relatos de arrependimentos; persistiu na missão até o fim.
Legado e Relevância Atual (até 2026)
Após a morte, o legado de Gentileza cresceu. As pilastras restauradas do Viaduto do Caju viraram ponto turístico e Patrimônio Cultural do Rio, tombado em 1997 pela prefeitura. Visitas guiadas ocorrem regularmente.
Artistas e músicos o homenagearam. O álbum "Gentileza" de Lenine, lançado em 1999, inclui faixas inspiradas nele. Documentários como "Gentileza, o Profeta da Gentileza" (2002), de David Meyer, e exposições em museus como o CCBB-RJ preservam sua memória.
Em 2011, o Google Street View capturou as pilastras, globalizando a imagem. Até 2026, restaurações periódicas mantêm as pinturas vivas. Escolas ensinam sua frase icônica em projetos de cidadania.
Gentileza influencia o street art brasileiro. Grafiteiros citam-no como pioneiro. Sua mensagem anti-consumista ressoa em debates sobre desigualdade urbana. Em 2020, durante a pandemia, frases suas circularam em redes sociais como lembrete de empatia.
Sua relevância persiste como símbolo de espiritualidade laica e resistência poética. Museus e livros, como "Profeta Gentileza" de José Miguel Wisnik (2003), analisam sua obra. Até fevereiro 2026, não há controvérsias novas; o consenso cultural o vê como figura genuína e singular.
