Introdução
Pietro Metastasio emergiu como figura central no teatro lírico europeu do século XVIII. Sob o pseudônimo helenizado de Metastasio – derivado de "metastàsios", significando "mudança" em grego –, Pietro Antonio Domenico Trapassi transformou o libreto operístico em forma literária refinada. Nascido em 3 de janeiro de 1698, em Roma, e falecido em 12 de abril de 1782, em Viena, ele serviu como Poeta Cesareo da corte austríaca por mais de 50 anos.
Sua relevância reside na reforma do melodramma serio. Metastasio impôs regras de unidade dramática, verossimilhança e equilíbrio entre ária e recitativo, influenciando a transição do barroco para o classicismo. Seus textos foram musicados por cerca de 800 compositores, incluindo Georg Friedrich Händel, Wolfgang Amadeus Mozart e Christoph Willibald Gluck. Até 2026, sua obra permanece encenada em teatros como a Scala de Milão e a Ópera de Viena, simbolizando a fusão de poesia e música no Iluminismo.
Origens e Formação
Pietro nasceu em uma família modesta de Roma. Seu pai, Felice Trapassi, trabalhava como soldado papal, enquanto a mãe, Leopolda Sarri, cuidava da casa. Aos dez anos, em 1708, recitava versos nas ruas quando chamou a atenção do jurista e helenista Gian Vincenzo Gravina, um dos fundadores da Arcádia romana.
Gravina adotou o menino, batizou-o Pietro Antonio Domenico e o educou em sua villa em Astura. Mudou seu sobrenome para Metastasio, inspirado em Metastasio de Bizâncio, e o instruiu em grego, latim, italiano clássico e retórica. Gravina via nele um sucessor espiritual. Em 1712, publicou os primeiros poemas de Metastasio em Giustino.
Aos 14 anos, Metastasio compôs a serenata Endimione (1712), elogiada por intelectuais romanos. Após a morte de Gravina em 1718, herdou a biblioteca e uma pensão. Mudou-se para Nápoles em 1719, onde trabalhou como secretário e continuou estudos musicais com Nicola Porpora e improvisações poéticas. Ali, conheceu o compositor Francesco Gasparini e cantores como Marianna Benti Bulgarelli, "la Romanina", que inspirou seu primeiro grande sucesso.
Trajetória e Principais Contribuições
A carreira de Metastasio decolou em Nápoles com Didone abbandonata (1723), libreto baseado em Virgílio, estreado com música de Domenico Sarro. A peça impôs o modelo de "metastasianos": heróis nobres, dilemas morais resolvidos pela virtude, e estrutura em três atos com árias reflexivas. Seguiram-se Catone in Utica (1727), Semiramide riconosciuta (1729) e Alessandro nell'Indie (1729).
Em 1730, o imperador Carlos VI convocou-o para Viena como Poeta Cesareo, cargo vitalício com salário anual de 3.000 florins. Lá, escreveu Demetrio (1731), Achille in Sciro (1736) e La clemenza di Tito (1734), este último musicado por Antonio Caldara e revivido por Mozart em 1791. Produziu cerca de 27 libretos operísticos, além de oratórios como La Passione di Gesù Cristo (1730) e cantatas.
Sua inovação radicava na "riforma del gusto": reduziu o número de árias, priorizou o drama contínuo e integrou coros clássicos. Händel adaptou La Resurrezione e Il trionfo del tempo; Haydn compôs sobre Il ritorno d'Ulisse. Metastasio publicou Opere (1745-1752) em oito volumes e manteve correspondência com Farinelli, enviando libretos para Madri. Até 1760, dominou as cortes europeias.
Em listas cronológicas:
- 1723: Didone abbandonata – 50 versões musicadas.
- 1732: Olympiade – baseado em Calístenes, com 40 adaptações.
- 1733: Demofoonte – tema de tirania e liberdade.
- 1758: Attilio Regolo – último grande êxito vienense.
Sua poesia lírica, como Poesie (1734), ecoava Petrarca e Tasso, com odes e epístolas.
Vida Pessoal e Conflitos
Metastasio viveu solteiro em Viena, no palácio da imperatriz Maria Teresa. Manteve laços afetivos profundos. Em Nápoles, apaixonou-se por Marianna Bulgarelli, casada, que estreou suas heroínas. Em Viena, cortejava a soprano castrato Carlo Broschi (Farinelli), correspondendo-se por décadas. Adotou a sobrinha Marianna, formando um núcleo familiar.
Conflitos surgiram com a decadência da ópera barroca. Críticos como Francesco Algarotti atacaram sua fórmula rígida em Saggio sull'opera in musica (1755), acusando-o de estagnar o drama. Metastasio defendeu-se em cartas, mas viu rivais como Apostolo Zeno ganharem espaço. Problemas de saúde, como gota e cegueira parcial nos anos 1770, limitaram sua produção.
A corte austríaca valorizava-o: José II visitava-o. No entanto, a Guerra dos Sete Anos (1756-1763) tensionou finanças imperiais, reduzindo encomendas. Metastasio recusou convites para Itália, fiel a Viena. Sua vida foi estável, sem escândalos graves, marcada por rotina literária e saraus musicais.
Legado e Relevância Atual (até 2026)
Metastasio moldou o libreto como gênero autônomo, pavimentando a ópera reformada de Gluck (Alceste, 1767, sobre seu texto). Mozart usou Mitridate (1770), Idomeneo (influenciado) e La clemenza di Tito (1791). Seu modelo influenciou Verdi e Wagner indiretamente.
Até 2026, óperas metastasianas encenam-se anualmente: Didone em Glyndebourne (2023), Tito no Festival de Salzburgo (2025). Edições críticas saem pela Bärenreiter (2022). Estudos acadêmicos, como os de Marita McClymonds, destacam seu papel na Aufklärung musical. Em Portugal e Brasil, teatros como o São Carlos e o Municipal do Rio revivem suas obras em temporadas barrocas.
Sua poesia circula em antologias italianas. A correspondência com Farinelli, editada em 2000, revela o cosmopolitismo setecentista. Metastasio simboliza a ponte entre Renascimento e Modernidade na lírica europeu, com impacto em musicologia contemporânea.
