Introdução
Pier Paolo Pasolini nasceu em 5 de março de 1922, em Bolonha, Itália, e morreu assassinado em 2 de novembro de 1975, em Ostia, perto de Roma. Cineasta, poeta, romancista, ensaísta e jornalista, Pasolini emergiu como uma das figuras mais influentes e polêmicas da cultura italiana do século XX. Sua produção abrange poesia em dialeto friulano e italiano, romances neorrealistas, filmes provocativos e críticas ferozes ao capitalismo e à burguesia.
Ele ganhou notoriedade nos anos 1950 com livros como Ragazzi di vita, que retratam a miséria das periferias romanas, e nos anos 1960 com cinema autoral, como O Evangelho Segundo São Mateus (1964), que reinterpretou a Bíblia com nonatores amadores. Pasolini criticava a "antropologia" da sociedade moderna, vendo nela a perda de valores camponeses e a homogeneização consumista. Sua morte violenta, por espancamento e atropelamento, permanece envolta em mistérios judiciais, simbolizando os conflitos que marcou. Até 2026, sua obra continua debatida em festivais, estudos acadêmicos e adaptações, influenciando cineastas como Abel Ferrara e intelectuais de esquerda.
Origens e Formação
Pasolini cresceu em uma família de classe média. Seu pai, Carlo Alberto Pasolini, era militar; sua mãe, Susanna Colussi, professora primária, exerceu forte influência afetiva. A família mudou-se frequentemente devido à carreira paterna: Trieste, Cremona, Bolonha. Em 1930, fixaram-se em Casarsa della Delizia, no Friuli, onde Pasolini descobriu o dialeto local, que usaria em sua poesia inicial.
Durante a adolescência, sob o fascismo, ele estudou em liceus em Udine e Bolonha. Formou-se em Literatura Clássica pela Universidade de Bolonha em 1941, com tese sobre Piccinino d'Amaduzzi. Influenciado por Dante, Leopardi e Rimbaud, publicou os primeiros poemas em 1941, na revista Il Setaccio. Em 1942, lançou Poesie a Casarsa, em friulano, marcando sua identidade regional.
A Segunda Guerra Mundial interrompeu sua vida. Em 1943, com a invasão alemã, Pasolini aderiu à resistência cultural no Friuli, ensinando e organizando círculos literários. Em 1945, filiou-se ao Partido Comunista Italiano (PCI), mas foi expulso em 1949, acusado de "corrupção de menores e atos obscenos", após relações homossexuais com alunos. Esse episódio o levou a Roma em 1950, fugindo de escândalos locais.
Trajetória e Principais Contribuições
Em Roma, Pasolini mergulhou no subproletariado das borgatas, inspirando sua prosa inicial. Em 1954, publicou poemas em La meglio gioventù, antologia com outros autores. Seu romance Ragazzi di vita (1955) chocou pela linguagem crua e retrato da prostituição juvenil; foi alvo de censura, mas vendeu bem. Seguiu-se Um dos Fundamentos (1957), narrativa fragmentada sobre amizade proletária.
Como roteirista, colaborou com Fellini em Notti di notte (1959). Sua estreia no cinema veio com Accattone (1961), filme neorrealista sobre um cafetão romano, rodado com atores de rua. Recebeu críticas mistas, mas estabeleceu seu estilo: câmera direta, trilha de Bach, erotismo sem pudor. Em 1962, Mamma Roma, com Anna Magnani, aprofundou temas maternos e degradação urbana.
Os anos 1960 foram prolíficos. O Evangelho Segundo São Mateus (1964), filmado na Palestina com orçamento baixo, ganhou Prêmio Especial do Júri em Veneza e elogios de intelectuais católicos. Pasolini usou seu irmão Guido (morto em 1945 na resistência) como Cristo, enfatizando humanidade sobre dogmas. O Vangelo Secondo Matteo destacou-se por fidelidade textual à Bíblia, mas com visão marxista.
Teorema (1968) provocou escândalo: um estranho seduz uma família burguesa, levando à loucura ou santidade. Condenado por obscenidade, refletia a crise burguesa. Porno-Teo-Kolossal (1969), musical satírico sobre consumismo, e Medeia (1969), com Maria Callas, expandiram seu teatro mítico. Nos anos 1970, Decameron (1971), Os Contos de Canterbury (1972) e Il Fiore delle Mille e Una Notte (1974) formaram a Trilogia da Vida, celebrando erotismo folclórico pré-moderno.
Sua fase final, crítica à pornografia, culminou em Salò ou os 120 Dias de Sodoma (1975), adaptação de Sade ambientada na República de Salò fascista, denunciando poder e sadismo capitalista. Pasolini escreveu para jornais como Corriere della Sera, com colunas como "Il PCI ai giovani!!" (1975), apoiando o PCI apesar de divergências. Publicou poesia (Poesia in forma di rosa, 1964) e ensaios (Escritos Corsários, 1975), atacando TV e hedonismo burguês.
Vida Pessoal e Conflitos
Pasolini viveu abertamente sua homossexualidade desde os anos 1940, frequentando prostitutos masculinos das periferias romanas. Relacionamentos intensos marcaram sua biografia, como com o jovem Ninetto Davoli, ator em vários filmes. Ele manteve laços próximos com a mãe até a morte dela em 1974.
Conflitos abundaram. Expulso do PCI em 1949, manteve-se marxista heterodoxo, criticando o partido por burocratismo. Processos judiciais por obscenidade perseguiram-no: Ragazzi di vita, Accattone, Teorema. Em 1963, absolvido em julgamento por Violência e Nudez no Cinema Italiano. Polêmicas com feministas e católicos radicais surgiram por seu erotismo masculino e visões sobre subproletariado como "puro".
Sua morte ocorreu na madrugada de 1-2 de novembro de 1975. Após encontro com um jovem de 17 anos, Pino Pelosi, em Roma, Pasolini foi espancado em Ostia e atropelado por seu próprio Alfa Romeo. Pelosi condenado por homicídio, mas em 2005, investigações sugeriram múltiplos agressores neonazistas. O caso reaberto em 2010 não alterou veredicto. Pasolini previra sua morte em poemas, lamentando a perda da "autenticidade camponesa".
Legado e Relevância Atual (até 2026)
Pasolini influencia cinema, literatura e teoria cultural. Seus filmes restaurados circulam em festivais como Cannes e Berlim. Salò permanece proibido em alguns países por violência explícita, mas é estudado em universidades por crítica ao fascismo eterno. Obras literárias editadas em volumes completos pela Einaudi.
Em Itália, fundações como CasaColussi preservam seu acervo em Casarsa. Até 2026, adaptações teatrais de Orgia e exposições em Roma revivem sua figura. Intelectuais como Slavoj Žižek citam-no contra neoliberalismo. Debates sobre sua visão "antimoderna" persistem: para uns, profético; para outros, elitista. Seu assassinato inspira documentários como Pasolini, um Delitto Italiano (2005). Globalmente, edições em inglês e francês mantêm-no vivo, com Ragazzi di vita traduzido em dezenas de idiomas.
