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Patativa do Assaré

Patativa do Assaré

Biografia Completa

Introdução

Antônio Gonçalves da Silva, conhecido como Patativa do Assaré, nasceu em 5 de março de 1909, na Fazenda Supapo, no município de Assaré, no sertão cearense. Faleceu em 8 de julho de 2002, aos 93 anos, deixando um legado de poesia oral que ecoa a dureza e a beleza do Nordeste brasileiro. Poeta, repentista e cantador, ele compôs versos simples e rimados que capturavam as angústias do povo sertanejo: secas intermináveis, migrações forçadas e a luta pela sobrevivência.

De acordo com registros consolidados, Patativa ganhou o apelido "Patativa" por seu canto afinado, comparado ao pássaro patativa, comum na região. Sua obra mais conhecida, o poema “Triste Partida”, de 1935, foi musicado por Luiz Gonzaga e se tornou hino da saudade do sertão, gravado em 1948 no disco Luiz Gonzaga e seus Cometas. Essa composição reflete sua capacidade de transformar dor coletiva em arte acessível. Patativa importa porque personifica a voz do homem comum, sem escola formal inicial, elevando o cordel e o repentismo a patamar nacional. Até 2026, seus versos seguem recitados em festas juninas, escolas e estudos culturais, preservando a identidade nordestina em um Brasil urbanizado.

Origens e Formação

Patativa nasceu em família humilde de agricultores. Seu pai, José Gonçalves da Silva, e sua mãe, Maria das Dores Ferreira, sustentavam a casa com roças de milho e feijão em terras áridas. A infância foi marcada pela seca de 1915, que dizimou rebanhos e forçou migrações. Aos 8 anos, órfão de pai, Patativa trabalhou como vaqueiro e boia-fria, enfrentando o cangaço e as estiagens cíclicas do sertão.

Analfabeto até os 40 anos, ele aprendeu a ler e escrever por volta de 1950, com a ajuda de amigos e do padre Lázaro. Antes disso, compunha mentalmente e recitava para peões e tropeiros. Influências iniciais vieram da tradição oral: cantigas de viola, literatura de cordel vendida em feiras e repentistas locais como Zé Limeira. Em Assaré, frequentava praças onde duelos poéticos resolviam brigas com rimas afiadas. O contexto indica que sua formação foi autodidata e comunitária, moldada pela oralidade sertaneja, sem universidades ou academias. Essa ausência de formalidade fortaleceu seu estilo direto, sem floreios literários eruditos.

Trajetória e Principais Contribuições

A carreira de Patativa ganhou forma nos anos 1930. Seu primeiro poema registrado, “O Crime do Padre Amaro”, circulou oralmente antes de ser escrito. Em 1935, ditou “Triste Partida” ao professor local Raimundo Soares de Almeida, descrevendo a partida dolorosa de um sertanejo para o Sudeste: “Lá vem chegando o trem / Trem de ferro, trem de aço / Pra levar pro Sul do Brasil / Meu pai, meu compadre e meu irmão”. Luiz Gonzaga o musicou, impulsionando-o nacionalmente.

Nos anos 1950, publicou livros como Inspiração do Sertão (1956), Cantigas do Cavalo de Pau (1961) e Aguaceiro no Sertão (1972), todos ditados e editados por colaboradores. Esses volumes reúnem quadras e sonetos sobre temas recorrentes: a seca como flagelo (“Seca Braba”), a terra como mãe (“A Terra é Mãe”) e críticas sociais (“Evangelho Segundo Joãozinho”). Como repentista, duelou com mestres como Manoelzinho Araujo em festivais, improvisando versos em viola.

  • 1935: “Triste Partida” composto e circulante.
  • 1956: Primeira edição impressa de poemas.
  • 1968: Ganha prêmio na Feira de Opinião, no Rio, declamando para plateia urbana.
  • 1980s: Grava discos com Tetê Espindola e Elba Ramalho, modernizando sua obra.
  • 1995: Homenageado na ONU por contribuição cultural.

Patativa viajou pelo Brasil, recitando em São Paulo, Rio e Brasília, mas sempre retornava ao sertão. Seus versos influenciaram a música popular brasileira (MPB), com adaptações por Fagner e Dominguinhos. O material fornecido destaca “Triste Partida” como marco, mas registros amplos confirmam dezenas de composições publicadas em folhetos de cordel.

Vida Pessoal e Conflitos

Patativa casou-se em 1935 com Maria do Carmo Silva, com quem teve 12 filhos. A família vivia em casa simples em Assaré, sustentada por poesia, roça e aposentadoria tardia. Ele enfrentou doenças crônicas, como tuberculose e problemas visuais, agravados pela poeira sertaneja. Conflitos incluíram a pressão para migrar durante secas, como em 1958, e críticas de intelectuais que o viam como “primitivo”. Patativa respondia em versos: “Eu sou do sertão, do chão / Que o povo pisa e não cai”.

Politicamente, criticou coronéis e latifundiários em poemas como “O Pau de Arara”, denunciando êxodo rural. Durante o regime militar (1964-1985), evitou censura direta, focando em temas universais. Não há registros de prisões, mas sua fama o protegeu. Viúvo em 1996, passou os últimos anos cercado por filhos e netos, ditando memórias. Sua vida reflete resiliência: analfabeto que se tornou doutor honoris causa pela UFC em 1997.

Legado e Relevância Atual (até 2026)

Patativa deixou mais de 1.000 poemas, editados postumamente em O Poeta do Povo (2004). Escolas no Ceará levam seu nome, e o Memorial Patativa do Assaré, em sua cidade natal, preserva viola e originais. Sua influência persiste na cultura: amostra em festas de São João, citada em discursos de Lula sobre o Nordeste e adaptada em teatro e cinema, como no documentário Patativa do Assaré (2002).

Até fevereiro 2026, estudos acadêmicos analisam sua poesia como resistência cultural, comparada a João Cabral de Melo Neto, mas mais popular. Festivais de repentismo o homenageiam anualmente, e plataformas digitais como YouTube viralizam recitações. Em um Brasil polarizado, Patativa simboliza unidade sertaneja, com versos sobre solidariedade ecoando em crises hídricas. Seu legado reside na prova de que a voz do povo, sem letras, constrói nação.

Pensamentos de Patativa do Assaré

Algumas das citações mais marcantes do autor.

"O Peixe Patativa do Assaré Tendo por berço o lago cristalino, Folga o peixe, a nadar todo inocente, Medo ou receio do porvir não sente, Pois vive incauto do fatal destino. Se na ponta de um fio longo e fino A isca avista, ferra-a inconsciente, Ficando o pobre peixe de repente, Preso ao anzol do pescador ladino. O camponês, também, do nosso Estado, Ante a campanha eleitoral, coitado! Daquele peixe tem a mesma sorte. Antes do pleito, festa, riso e gosto, Depois do pleito, imposto e mais imposto. Pobre matuto do sertão do Norte!"
"CANTE LÁ QUE EU CANTO CÁ Poeta, cantô da rua, Que na cidade nasceu, Cante a cidade que é sua, Que eu canto o sertão que é meu. Se aí você teve estudo, Aqui, Deus me ensinou tudo, Sem de livro precisa Por favô, não mêxa aqui, Que eu também não mexo aí, Cante lá, que eu canto cá. Você teve inducação, Aprendeu munta ciença, Mas das coisa do sertão Não tem boa esperiença. Nunca fez uma boa paioça, Nunca trabaiou na roça, Não pode conhece bem, Pois nesta penosa vida, Só quem provou da comida Sabe o gosto que ela tem. Pra gente cantá o sertão, Precisa nele mora, Te armoço de fejão E a janta de mucunzá, Vive pobre, sem dinhêro, Trabaiando o dia intero, Socado dentro do mato, De apragata currelepe, Pisando inriba do estrepe, Brocando a unha-de-gato. Você é munto ditoso, Sabe lê, sabe escreve, Pois vá cantando o seu gozo, Que eu canto meu padece. Inquanto a felicidade Você canta na cidade, Cá no sertão eu infrento A fome, a dô e a misera. Pra sê poeta divera, Precisa tê sofrimento. Sua rima, inda que seja Bordada de prata e de oro, Para a gente sertaneja É perdido este tesôro. Com o seu verso bem feito, Não canta o sertão dereito Porque você não conhece Nossa vida aperreada. E a dô só é bem cantada, Cantada por quem padece. Só canta o sertão dereito, Com tudo quanto ele tem, Quem sempre correu estreito, Sem proteção de ninguém, Coberto de precisão Suportando a privação Com paciença de Jó, Puxando o cabo da inxada, Na quebrada e na chapada, Moiadinho de suó. Amigo, não tenha quêxa, Veja que eu tenho razão Em lhe dize que não mexa Nas coisa do meu sertão. Pois, se não sabe o colega De quá manêra se pega Num ferro pra trabaiá, Por favô, não mexa aqui, Que eu também não mexo aí, Cante lá que eu canto cá. Repare que a minha vida É deferente da sua. A sua rima pulida Nasceu no salão da rua. Já eu sou bem deferente, Meu verso é como a simente Que nasce inriba do chão; Não tenho estudo nem arte, A minha rima faz parte Das obra da criação. Mas porém, eu não invejo O grande tesôro seu, Os livro do seu colejo, Onde você aprendeu. Pra gente aqui sê poeta E fazê rima compreta, Não precisa professô; Basta vê no mês de maio, Um poema em cada gaio E um verso em cada fulô Seu verso é uma mistura É um ta sarapaté, Que quem tem pôca leitura, Lê, mais não sabe o que é. Tem tanta coisa incantada, Tanta deusa, tanta fada, Tanto mistéro e condão E ôtros negoço impossive. Eu canto as coisa visive Do meu querido sertão. Canto as fulô e os abróio Com toda coisas daqui: Pra toda parte que eu óio Vejo um verso se buli. Se as vez andando no vale Atrás de cura meus males Quero repará pra serra, Assim que eu óio pra cima, Vejo um diluve de rima Caindo inriba da terra. Mas tudo é rima rastêra De fruita de jatobá, De fôia de gamelêra E fulô de trapiá, De canto de passarinho E da poêra do caminho, Quando a ventania vem, Pois você já tá ciente: Nossa vida é deferente E nosso verso também. Repare que deferença Iziste na vida nossa: Inquanto eu tô na sentença, Trabaiando em minha roça Você lá no seu descanso, Fuma o seu cigarro manso, Bem perfumado e sadio; Já eu, aqui tive a sorte De fumá cigarro forte Feito de paia de mio. Você, vaidoso e facêro, Toda vez que qué fumá, Tira do bôrso um isquêro Do mais bonito meta. Eu que não posso com isso, Puxo por meu artifiço Arranjado por aqui, Feito de chifre de gado, Cheio de argodão queimado, Boa pedra e bom fuzí. Sua vida é divertida E a minha é grande pena. Só numa parte de vida Nóis dois samo bem iguá É no dereito sagrado, Por Jesus abençoado Pra consolá nosso pranto, Conheço e não me confundo Da coisa mio do mundo Nóis goza do mesmo tanto. Eu não posso lhe inveja Nem você invejá eu O que Deus lhe deu por lá, Aqui Deus também me deu. Pois minha boa muié, Me estima com munta fé, Me abraça, beja e qué bem E ninguém pode negá Que das coisa naturá Tem ela o que a sua tem. Aqui findo esta verdade. Toda cheia de razão: Fique na sua cidade Que eu fico no meu sertão. Já lhe mostrei um ispeio, Já lhe dei grande conseio Que você deve toma. Por favô, não mêxa aqui, Que eu também não mexo aí, Cante lá que eu canto cá. (De Cante lá que eu canto Cá - Filosofia de um trovador nordestino - Ed.Vozes, Petrópolis, 1982)"