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Mestre Pastinha

Mestre Pastinha

Biografia Completa

Introdução

Vicente Ferreira Pastinha, eternizado como Mestre Pastinha, representa a essência da capoeira angola no Brasil. Nascido em 5 de outubro de 1889, em Salvador da Bahia, ele dedicou a vida à preservação dessa manifestação cultural afro-brasileira, originária dos escravos africanos. Pastinha fundou, em 1941, a primeira academia formal de capoeira no país, batizada de Academia de Capoeira Angola Vicente Ferreira Pastinha, localizada na Ladeira da Praça. Sua importância reside na resistência contra a "capoeira regional" modernizada por Mestre Bimba, defendendo a tradição lenta, musical e ritualística da angola.

Ele escreveu o livro Capoeira Angola em 1964, documentando ladainhas, toques e filosofia da roda. Apesar de analfabeto inicial, ditou suas memórias e ensinamentos. Pastinha simboliza a luta pela valorização cultural negra em meio à marginalização. Sua cegueira aos 70 anos e morte pobre em 1981 não apagaram seu impacto: grupos como Filhos de Gandhy e Abadá-Capoeira Angola perpetuam sua linhagem. Até 2026, sua influência molda debates sobre autenticidade na capoeira globalizada. (178 palavras)

Origens e Formação

Pastinha nasceu no bairro do Cajazeiras, em Salvador, filho de José Pastinha, imigrante italiano pedreiro, e Maria Rita de Jesus, baiana de origem africana. Cresceu em ambiente pobre, misturando influências italianas e afro-brasileiras. Aos 8 anos, em 1897, iniciou na capoeira ao observar uma roda na porta de casa. Mestre Benedita, capoeirista de rua, o convidou para jogar. Pastinha aprendeu os fundamentos: esquivas, ginga e malícia.

Aos 12 anos, fugiu de casa após briga familiar e viveu nas ruas, aprimorando a capoeira com capoeiristas locais. Em 1909, aos 20 anos, alistou-se na Marinha brasileira no encouraçado São Paulo. Lá, praticou boxe e lutas navais, mas manteve a capoeira em segredo devido à proibição. Desembarcou em 1912 e viajou para Montevidéu, Uruguai, e Buenos Aires, Argentina, trabalhando como marinheiro e pintor de navios.

Retornou a Salvador em 1917, casou-se com Estolina dos Anjos, conhecida como Mãe Estolina, mestra de capoeira. Trabalhou como pintor de obras e muralista, especializando-se em pintura predial. Sua formação foi autodidata: observação de rodas, vivência de rua e influência de Benedita. Nunca frequentou escola formal além do básico, mas absorveu cantigas iorubás e mandingas orais. Essa base forjou seu estilo angular, lento e estratégico, oposto à velocidade regional. (248 palavras)

Trajetória e Principais Contribuições

A trajetória de Pastinha ganhou forma nos anos 1930, quando a capoeira saía da ilegalidade após a Lei 2.848/1940, que a regulava. Em 1941, aos 52 anos, fundou sua academia na Ladeira da Praça nº 19, com permissão oficial do governo baiano. Era um sobrado azul, símbolo da angola: uniformes brancos, berimbau central e rodadas rituais. A academia formou gerações, incluindo João Pequeno e Cobra Mansa.

Pastinha diferenciava angola de regional: "Capoeira angola é a de chão baixo, com muita malícia e música". Organizou encontros com Mestre Bimba em 1943, mas divergiram ideologicamente. Em 1952, a academia fechou por falta de aluguel; reabriu em 1962 no Pelourinho. Ditou Capoeira Angola (1964), ilustrado por ele mesmo, com 200 páginas sobre história, toques (como Angola, São Bento Grande) e ladainhas como "Eu vim da Bahia pra jogar capoeira".

Nos anos 1960, recebeu visitas de antropólogos como Waldeloir Rego e escritores como Jorge Amado, que o retratou em obras. Em 1968, viajou a Rio de Janeiro para o I Festival Mundial de Artes Negras. Gravou discos com cantigas em 1970. Aos 80 anos, apesar da cegueira progressiva (perdeu visão aos 70), ensinava pelo tato e voz. Sua academia fechou definitivamente em 1975. Contribuições incluem padronização da angola: ênfase em música (berimbau, atabaque), ritual (batizado) e filosofia de não-violência estratégica. (262 palavras)

Vida Pessoal e Conflitos

Pastinha casou-se três vezes. Primeiro com Mãe Estolina (1917-1940s), que tocava berimbau e gerenciava a academia; sem filhos. Segundo casamento com Dalva, nos anos 1950. Terceiro com Nice, que o cuidou na velhice. Viveu com filhos espirituais da capoeira, como Camafeu de Oxóssi.

Conflitos marcaram sua vida. Rivalidade com Mestre Bimba dividiu a capoeira: Pastinha via regional como "acrobacia", enquanto Bimba o acusava de conservadorismo. Perseguições policiais nos anos 1920 o forçaram à clandestinidade. Pobreza crônica: vendia quadros para sobreviver; na velhice, dependia de pensão mínima. Cegueira, causada por glaucoma, o isolou; ditava aulas de cadeira. Em 1978, internado em asilo público no Flamengo, Rio, após despejo. Críticas vinham de modernistas que o tachavam de atrasado. Ainda assim, manteve dignidade: "Capoeira é minha vida, minha mãe". (192 palavras)

Legado e Relevância Atual (até 2026)

Mestre Pastinha faleceu em 13 de novembro de 1981, aos 92 anos, no Hospital Roberto Santos, Salvador, de pneumonia. Seu corpo foi velado na academia e enterrado no Cemetery of Quintas. O legado persiste na International Capoeira Angola Foundation e grupos como Capoeira Angola de João Pequeno.

Em 1983, lançou postumamente Lições da Capoeira Angola. Sua academia virou museu em 2003. Até 2026, UNESCO reconhece capoeira como Patrimônio Imaterial (2014), com angola destacada. Festivais como "Encontro de Capoeira Angola" em Salvador homenageiam-no anualmente. Influencia artistas: documentários como Mestre Pastinha: Um Homem de Cor (1998) e livros como Capoeira Angola reeditado. No exterior, mestres formados por ele ensinam em EUA, Europa e África. Debates sobre autenticidade citam-no contra comercialização. Sua frase "Capoeira é tudo que eu sei" resume a filosofia viva. (167 palavras)

Pensamentos de Mestre Pastinha

Algumas das citações mais marcantes do autor.