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Marcel Mauss

Marcel Mauss

Biografia Completa

Introdução

Marcel Mauss nasceu em 10 de maio de 1872, em Épinal, nos Vosges, França, e faleceu em 10 de fevereiro de 1950, em Paris. Sociólogo e antropólogo, ele é reconhecido como o pai da etnologia francesa. Discípulo e colaborador próximo de Émile Durkheim, seu tio, Mauss ajudou a consolidar a sociologia como ciência autônoma.

Sua contribuição central reside no estudo das práticas sociais além do Ocidente, enfatizando trocas simbólicas. Obras como O Ensaio sobre a Dádiva (1925) analisam obrigações recíprocas em sociedades polinésias e melanésias. Mauss fundou instituições chave, como o Instituto de Etnologia da Universidade de Paris em 1925, com Lucien Lévy-Bruhl e Robert Hertz.

Durante a Primeira Guerra Mundial, serviu no front e sofreu ferimentos. Professor no Collège de France desde 1931, formou alunos como Claude Lévi-Strauss. Seu legado persiste na antropologia moderna, até 2026, com o conceito de "dádiva" central em debates sobre economia e solidariedade. Mauss combinou rigor empírico com visão comparativa, marcando a transição da sociologia durkheimiana para a etnografia contemporânea.

Origens e Formação

Mauss cresceu em uma família judia alsaciana de classe média. Seu pai, Lazare Mauss, era tecelão e comerciante de trapos. A mãe, Henriette Frescheville, veio de linhagem rabínica. Essa herança judaica moldou sua sensibilidade cultural, embora ele se afastasse da prática religiosa na idade adulta.

Aos 11 anos, ingressou no Lycée de Belfort. Em 1891, entrou na École Normale Supérieure (ENS), em Paris, onde se formou em filosofia. Lá, conheceu Henri Hubert, amigo vitalício, e Durkheim, que lecionava. Mauss obteve a agrégation em filosofia em 1895, com tese sobre Santo Agostinho.

Influenciado por Durkheim, abandonou a filosofia pura pela sociologia. Estudou sânscrito com Abel Bergaigne e viajou à Inglaterra em 1898, contactando Francis Galton e James Frazer. Essas experiências iniciais forjaram seu interesse por fatos sociais totais, abrangendo economia, direito e religião.

Trajetória e Principais Contribuições

Em 1898, Mauss co-fundou L'Année Sociologique com Durkheim, Henri Hubert e outros. Essa revista publicou resenhas e ensaios que sistematizaram a sociologia francesa, traduzindo obras estrangeiras e analisando religiões primitivas. Mauss editou fascículos sobre religião e morfologia social.

Em 1902, tornou-se chargé de recherches na École Pratique des Hautes Études (EPHE), na seção de religiões inferiores. Lecionou história das religiões da Austrália e Polinésia. Sua tese de 1899, com Hubert, Sacrifício: Forma e Função, introduziu noções de mana e tabu.

A Primeira Guerra Mundial interrompeu sua carreira. Moblizado em 1915 como intérprete alemão, serviu na Argélia e nos Dardanelos. Ferido duas vezes, ganhou a Croix de Guerre. Demitido em 1919, retomou o ensino na EPHE.

Em 1925, publicou O Ensaio sobre a Dádiva, baseado em textos de Bronisław Malinowski e outros. Analisa o kula das Ilhas Trobriand e potlatch dos kwakiutl, postulando três obrigações: dar, receber e retribuir. Esse texto define o "fato social total", integrando dimensões econômicas, morais e simbólicas.

Mauss fundou o Instituto de Etnologia em 1925, com Lévy-Bruhl e Hertz, financiado por Paul Rivet. Organizou missões etnográficas à África Ocidental e Nova Zelândia. Em 1931, sucedeu Célestin Bouglé na cátedra de Sociologia do Collège de France.

Outras obras incluem Sociologias et anthropologies (1938), com estudos sobre corpo, nações e civilizações. Pós-Segunda Guerra, editou Manuel d'Etnographie (1947), notas de curso para prisioneiros de guerra. Mauss defendeu um socialismo não marxista, colaborando com o Partido Operário Socialista.

Vida Pessoal e Conflitos

Mauss casou-se em 1904 com Marthe Durkheim, sobrinha de Émile, sem filhos. O casal residiu em Paris. Durante a guerra, Marthe gerenciou a casa e apoiou a revista. Mauss sofreu com depressão pós-guerra, agravada por perdas familiares.

A morte de Durkheim em 1917 abalou-o profundamente; ele assumiu a liderança intelectual do grupo. Perdeu amigos como Robert Hertz (1915) e Victor Basch (1944).

Na Segunda Guerra Mundial, como judeu, escondeu-se em Bordeaux e Périgueux. Ajudou judeus a fugir, arriscando a vida. Pós-liberação, recusou cargos oficiais por saúde frágil. Fumaça excessiva e estresse contribuíram para seu declínio.

Críticas o visavam por ecletismo: priorizava síntese sobre monografias. Rivais como Lévy-Bruhl questionavam seu comparativismo. Ainda assim, Mauss manteve redes amplas, influenciando Maurice Leenhardt e Louis Dumont.

Legado e Relevância Atual (até 2026)

Mauss deixou um vasto arquivo não publicado, editado por discípulos. Claude Lévi-Strauss dedicou-lhe Antropologia Estrutural (1958), creditando o método comparativo. O conceito de dádiva inspira estudos em economia solidária, gênero e globalização.

Até 2026, suas ideias ressoam em debates sobre capitalismo: Alain Caillé reviveu o maussismo com o Manifesto Conjunto por uma Dádiva de Civilização (1999). Instituições como o Centre d'Études Sociologiques mantêm sua herança.

Em antropologia, influencia Marshall Sahlins e Pierre Bourdieu. No Brasil, estudos sobre reciprocidade em sociedades indígenas citam-no. Sua ênfase em totalidade social contrasta com fragmentações pós-modernas. Mauss permanece referência consensual em ciências humanas, com edições críticas de obras em curso.

Pensamentos de Marcel Mauss

Algumas das citações mais marcantes do autor.