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Luís de Camões

Luís de Camões

Luís Vaz de Camões (1524-1580) foi um poeta português, considerado o maior poeta de língua portuguesa. Autor dos Lusíadas, maior obra literária portuguesa.

69 pensamentos

Frases - Página 5

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"Quem diz que Amor é falso ou enganoso, ligeiro, ingrato, vão, desconhecido, sem falta lhe terá bem merecido que lhe seja cruel ou rigoroso. Amor é brando, é doce e é piedoso. Quem o contrário diz não seja crido; seja por cego e apaixonado tido, e aos homens, e inda aos deuses, odioso. Se males faz Amor, em mi se vêem; em mim mostrando todo o seu rigor, ao mundo quis mostrar quanto podia. Mas todas suas iras são de Amor; todos os seus males são um bem, que eu por todo outro bem não trocaria."
"Erros meus, má Fortuna, Amor ardente Em minha perdição se conjuraram; Os erros e a Fortuna sobejaram, Que para mim bastava Amor somente. Tudo passei; mas tenho tão presente A grande dor das cousas que passaram, Que as magoadas iras me ensinaram A não querer já nunca ser contente. Errei todo o discurso de meus anos; Dei causa (a) que a Fortuna castigasse As minhas mal fundadas esperanças. De amor não vi senão breves enganos. Oh! Que tanto pudesse que fartasse Este meu duro Gênio de vinganças!"
"Raquel Sete anos de pastor Jacob servia Labão, pai de Raquel, serrana bela; Mas não servia ao pai, servia a ela, E a ela só por prémio pretendia. Os dias, na esperança de um só dia, Passava, contentando-se com vê-la; Porém o pai, usando de cautela, Em lugar de Raquel lhe dava Lia. Vendo o triste pastor que com enganos Lhe fora assi negada a sua pastora, Como se a não tivera merecida; Começa de servir outros sete anos, Dizendo: – Mais servira, se não fora Para tão longo amor tão curta a vida!"
"Tomou-me vossa vista soberana Aonde tinha as armas mais à mão, Por mostrar que quem busca defensão Contra esses belos olhos, que se engana. Por ficar da vitória mais ufana, Deixou-me armar primeiro da razão; Cuidei de me salvar, mas foi em vão, Que contra o Céu não vale defensa humana. Mas porém, se vos tinha prometido O vosso alto destino esta vitória, Ser-vos tudo bem pouco está sabido. Que posto que estivesse apercebido, Não levais de vencer-me grande glória; Maior a levo eu de ser vencido."
"Quando de minhas mágoas a comprida Maginação os olhos me adormece, Em sonhos aquela alma me aparece Que pera mim foi sonho nesta vida. Lá numa saudade, onde estendida A vista pelo campo desfalece, Corro pera ela; e ela então parece Que mais de mim se alonga, compelida. Brado: - Não me fujais, sombra benina! Ela, os olhos em mim c'um brando pejo, Como quem diz que já não pode ser, Torna a fugir-me; e eu gritando: - Dina... Antes que diga: - mene, acordo, e vejo Que nem um breve engano posso ter."
"Enquanto quis Fortuna que tivesse Esperança de algum contentamento, O gosto de um suave pensamento Me fez que seus efeitos escrevesse. Porém, temendo Amor que aviso desse Minha escritura a algum juízo isento, Escureceu-me o engenho co'o tormento, Para que seus enganos não disesse Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos A diversas vontades! Quando lerdes Num breve livro casos tão diversos, Verdades puras são e não defeitos; E sabei que, segundo o amor tiverdes, Tereis o entendimento de meus versos."
"Quem pode livre ser, gentil Senhora, Vendo-vos com juízo sossegado, Se o Menino que de olhos é privado Nas meninas de vossos olhos mora? Ali manda, ali reina, ali namora, Ali vive das gentes venerado; Que o vivo lume e o rosto delicado Imagens são nas quais o Amor se adora. Quem vê que em branca neve nascem rosas Que fios crespos de ouro vão cercando, Se por entre esta luz a vista passa, Raios de ouro verá, que as duvidosas Almas estão no peito trespassando Assim como um cristal o Sol trespassa."
"Ditoso seja aquele que somente Se queixa de amorosas esquivanças; Pois por elas não perde as esperanças De poder n'algum tempo ser contente. Ditoso seja quem estando ausente Não sente mais que a pena das lembranças; Porque, inda que se tema de mudanças, Menos se teme a dor quando se sente. Ditoso seja, enfim, qualquer estado, Onde enganos, desprezos e isenção Trazem o coração atormentado. Mas triste quem se sente magoado De erros em que não pode haver perdão, Sem ficar na alma a mágoa do pecado."
"Quem vê, Senhora, claro e manifesto O lindo ser de vossos olhos belos, Se não perder a vista só em vê-los, Já não paga o que deve a vosso gesto. Este me parecia preço honesto; Mas eu, por de vantagem merecê-los, Dei mais a vida e alma por querê-los, Donde já não me fica mais de resto. Assim que a vida e alma e esperança, E tudo quanto tenho, tudo é vosso, E o proveito disso eu só o levo. Porque é tamanha bem-aventurança O dar-vos quanto tenho e quanto posso, Que, quanto mais vos pago, mais vos devo."
"Vencido está de amor Vencido está de amor meu pensamento o mais que pode ser vencida a vida, sujeita a vos servir e instituída, oferecendo tudo a vosso intento. Contente deste bem, louva o momento ou hora em que se viu tão bem perdida; mil vezes desejando a tal ferida outra vez renovar seu perdimento. Com essa pretensão está segura a causa que me guia nesta empresa, tão estranha, tão doce, honrosa e alta. Jurando não seguir outra ventura, votando só por vós rara firmeza, ou ser no vosso amor achado em falta."
"Quando da bela vista e doce riso Tomando estão meus olhos mantimento, Tão enlevado sinto o pensamento, Que me faz ver na terra o Paraíso. Tanto do bem humano estou diviso, Que qualquer outro bem julgo por vento; Assi[m] que, em caso tal, segundo sento, Assaz de pouco faz quem perde o siso. Em vos louvar, Senhora, não me fundo, Porque quem vossas cousas claro sente, Sentirá que não pode conhecê-las. Que de tanta estranheza sois ao mundo, Que não é de estranhar, Dama excelente, Que quem vos fez fizesse céu e estrelas."
"No mundo quis um tempo que se achasse o bem que por acerto ou sorte vinha; e, por experimentar que dita tinha, quis que a Fortuna em mim se experimentasse. Mas por que meu destino me mostrasse que nem ter esperanças me convinha, nunca nesta tão longa vida minha cousa me deixou ver que desejasse. Mudando andei costume, terra e estado, por ver se se mudava a sorte dura; a vida pus nas mãos de um leve lenho. Mas, segundo o que o Céu me tem mostrado, já sei que deste meu buscar ventura, achado tenho já, que não a tenho."