Introdução
Hebert José de Souza, popularmente chamado de Betinho, nasceu em 29 de novembro de 1935, em Bocaiúva, Minas Gerais, e faleceu em 9 de agosto de 1997, no Rio de Janeiro. Sociólogo, jornalista e ativista social, ele se destacou como uma das vozes mais influentes na luta contra a fome e a miséria no Brasil. Sua trajetória une engajamento intelectual, militância política e ação prática, marcada pela contração precoce de hanseníase, que o deixou com sequelas físicas permanentes.
Betinho fundou instituições chave como o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), em 1981, e o Viva Rio, em 1993, além de coordenar a bem-sucedida "Ação pela Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida", lançada em 1993. Essa iniciativa mobilizou milhões de brasileiros na coleta de alimentos, influenciando debates sobre cidadania e solidariedade. Sua relevância persiste como símbolo de ativismo laico inspirado em valores cristãos, especialmente durante e após a ditadura militar brasileira (1964-1985). Até 2026, seu legado inspira ONGs e políticas públicas de combate à desigualdade.
Origens e Formação
Betinho nasceu em uma família numerosa de classe média em Bocaiúva, interior de Minas Gerais. Filho de José Antônio de Souza, dentista, e Maria José de Souza, teve oito irmãos, incluindo o sociólogo Herbert José de Souza (também ativista). Aos oito anos, contraiu hanseníase, doença que o internou por anos em sanatórios, deixando-o com paralisia nos membros inferiores e dependência de muletas pelo resto da vida.
Essa experiência precoce moldou sua visão humanista. Estudou no Colégio São João Berchmans, em Belo Horizonte, e ingressou na PUC-MG, onde se formou em jornalismo em 1958. Posteriormente, especializou-se em sociologia na Sorbonne, em Paris, entre 1961 e 1963, influenciado pelo pensamento católico progressista da época, como o de Jacques Maritain. De volta ao Brasil, trabalhou como repórter no jornal Estado de Minas e integrou a Ação Católica. Em 1962, casou-se com Maria Helena Pinto Pedrosa, com quem teve três filhos: Daniel, Lia e José Eduardo.
Trajetória e Principais Contribuições
A carreira de Betinho ganhou ímpeto nos anos 1960. Em 1964, após o golpe militar, filiou-se ao Partido Democrático Trabalhista (PDT) e integrou a equipe de Leonel Brizola no Rio de Janeiro, como assessor na Secretaria de Educação. Sua militância o levou ao exílio em 1964, passando pela França, Chile e Estados Unidos até 1968. De volta, trabalhou na assessoria de imprensa da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e fundou, em 1971, a Comissão Pastoral da Terra.
Em 1979, assumiu a coordenação do Grupo de Apoio à Reforma Agrária e, em 1981, criou o Ibase, think tank dedicado a análises sociais e econômicas voltadas para a cidadania. O instituto publicou relatórios influentes sobre desigualdade e reforma agrária. Nos anos 1980, Betinho coordenou a campanha "Brasil Sem Fome" e integrou comissões da ONU sobre desenvolvimento sustentável.
O ápice veio em 1993, com a "Ação pela Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida". Lançada no programa Fantástico da Rede Globo, mobilizou igrejas, empresas e voluntários para feiras de trocas de alimentos por cestas básicas. Em um ano, distribuiu milhões de quilos de comida, reduzindo temporariamente índices de desnutrição. Paralelamente, fundou o Viva Rio, rede de combate à violência urbana no Rio de Janeiro, que atuou em favelas com projetos de mediação de conflitos e prevenção de drogas.
Betinho publicou livros como "O que é cidadania?" (1989) e "A fome no Brasil" (1995), enfatizando a responsabilidade coletiva. Em 1995, recebeu o Prêmio Cidadania Mundial da Fundação Ford. Sua abordagem combinava dados estatísticos com apelos éticos, inspirados na Doutrina Social da Igreja.
Vida Pessoal e Conflitos
A vida pessoal de Betinho foi marcada por desafios de saúde e convicções políticas. A hanseníase o confinara por seis anos, gerando estigma social que ele combatia publicamente, fundando a Cruzada da Libertação da Hanseníase em 1961. Nos anos 1980, descobriu-se soropositivo para HIV, contraindo AIDS, o que agravou sua condição física e o levou a militância contra o preconceito à doença.
Casado com Maria Helena até sua morte, enfrentou críticas por sua proximidade com a Igreja Católica em meio a um ativismo laico. Durante a ditadura, sofreu vigilância e exílio, mas evitou prisão graças a conexões eclesiais. Conflitos surgiram com setores conservadores por defender reforma agrária e direitos dos sem-terra, e com a esquerda por sua ênfase em ações civis não violentas. Em 1996, uma internação por pneumonia o debilitou, mas ele continuou ativo até o fim. Faleceu de insuficiência respiratória em 1997, aos 61 anos, vítima de complicações da AIDS.
Legado e Relevância Atual (até 2026)
O legado de Betinho reside na institucionalização do combate à fome como dever cívico. A "Ação pela Cidadania" inspirou programas como o Fome Zero de Lula (2003), reconhecido globalmente. O Ibase e Viva Rio seguem ativos em 2026, com o primeiro focado em monitoramento de políticas públicas e o segundo em segurança urbana sustentável.
Sua frase "A cidadania não é documento, é atitude" tornou-se mantra educacional. Em 2023, o Viva Rio completou 30 anos com projetos em 20 estados. Até fevereiro 2026, relatórios do Ibase citam Betinho em debates sobre desigualdade pós-pandemia. Museus e ruas no Rio e Minas homenageiam-no, e sua biografia inspira ativistas como o Movimento Sem Terra. Sem ele, o ativismo brasileiro seria menos plural e humanista.
