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Doris Lessing

Doris Lessing

Biografia Completa

Introdução

Doris Lessing, nascida em 22 de outubro de 1919 em Kermanshah, na Pérsia (atual Irã), e falecida em 17 de novembro de 2013 em Londres, foi uma das escritoras mais influentes do século XX. Britânica de pais coloniais, seu trabalho abrangeu ficção, autobiografia e ensaios, com foco em colonialismo, política e a condição humana. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 2007, citado pela Academia Sueca por sua "narrativa epistolar que, com ceticismo desconfiado, penetra a ilusão da realidade". "O Caderno Dourado" (1962), sua obra-prima, é um marco do feminismo literário, dividida em cadernos que exploram fragmentação psíquica. Ao longo de cinco décadas, publicou mais de 50 livros, vendendo milhões de cópias. Sua relevância persiste por desafiar convenções narrativas e sociais, influenciando gerações de leitoras e escritores.

Origens e Formação

Doris May Tayler nasceu de pais britânicos: Alfred Cook Tayler, bancário e funcionário público, e Emily Maude McVeagh, enfermeira irlandesa. A família vivia na Pérsia devido ao emprego do pai. Em 1924, aos cinco anos, mudaram-se para uma fazenda no sul da Rodésia (atual Zimbábue), colônia britânica. Lá, Doris cresceu em isolamento rural, cercada por natureza hostil e tensões raciais.

Sua educação formal foi breve. Frequentou uma escola católica dominicana até os sete anos, depois uma escola pública até os 14, quando abandonou os estudos. Autodidata voraz, devorou Dickens, Dostoiévski e romances vitorianos da biblioteca materna. Emily, mãe dominadora, inspirou figuras autoritárias em suas obras. O pai, afetado pela Primeira Guerra Mundial, sofria de ferimentos crônicos. Esses elementos moldaram sua visão crítica do império britânico e da maternidade. Aos 13, Doris já escrevia contos, rejeitando o conformismo colonial. A Rodésia, com sua segregação racial, plantou sementes de seu anticolonialismo.

Trajetória e Principais Contribuições

A carreira literária de Lessing começou na década de 1940. Em 1943, publicou contos em revistas locais sob pseudônimo. Seu primeiro romance, "The Grass is Singing" (1950), retrata o colapso de um casal branco na Rodésia, expondo hipocrisia colonial. Vendido para a Suécia e traduzido amplamente, marcou sua estreia internacional.

Em 1949, após divorciar-se do segundo marido, Gottfried Lessing, mudou-se para Londres com o filho Peter, deixando os dois filhos do primeiro casamento na África. Lá, integrou-se a círculos comunistas e literários. A série "Children of Violence" (1952-1969), com "Martha Quest" como protagonista, mescla autobiografia e crítica social, cobrindo marxismo, guerra nuclear e liberação feminina.

"O Caderno Dourado" (1962) consolidou sua fama. Estruturado em quatro cadernos coloridos mais um dourado unificador, segue Anna Wulf, escritora dividida entre política, amor e loucura. Considerado marco feminista por Betty Friedan e Kate Millett, Lessing rejeitou o rótulo, afirmando tratar da fragmentação humana. O livro vendeu milhões e inspirou adaptações teatrais.

Na década de 1970, experimentou ficção científica na série "Canopus in Argos: Archives" (1979-1983), como "The Marriage of Zones Three, Four and Five", explorando impérios galácticos e espiritualidade. "The Good Terrorist" (1985) satiriza esquerdismo radical, ganhando o Whitbread Prize. Autobiografias como "Under My Skin" (1994) revelam sua juventude africana. Publicou até os 90 anos, incluindo "Alfred and Emily" (2008), reimaginando a vida dos pais. Ao todo, produziu 30 romances, contos, óperas e não-ficção sobre sufismo e ufologia.

Vida Pessoal e Conflitos

Lessing casou-se jovem. Aos 19 anos, em 1939, uniu-se a Frank Charles Wisdom, agricultor, com quem teve John (1940) e Pamela (1942). O casamento acabou em 1943, influenciado por seu ativismo antifascista e comunismo. Em 1945, casou com Gottfried Lessing, diplomata alemão judeu, tendo Peter (1947). Divorciaram-se em 1949; ela fugiu para a Inglaterra com Peter, enquanto Gottfried ficou com Peter inicialmente, mas o filho se juntou a ela depois.

Na Inglaterra, relacionamentos turbulentos incluíram um com o jornalista Clancy Sigal e outros intelectuais. Mãe dedicada, mas ausente dos filhos mais velhos, Lessing enfrentou acusações de abandono. Políticamente, filiou-se ao Partido Comunista da Grã-Bretanha em 1950, saindo em 1956 após a invasão soviética da Hungria. Crítica do feminismo radical das anos 1960-70, alegou que "O Caderno Dourado" era mal lido como manifesto feminista. Saúde declinou nos anos 2000: derrame em 1991 afetou a fala, mas continuou escrevendo. Viveu reclusa em Londres, fumante convicta até o fim.

Legado e Relevância Atual (até 2026)

Até 2013, Lessing vendeu dezenas de milhões de livros em 30 idiomas. O Nobel de 2007, recebido em casa por fragilidade, elevou seu status. Em 2026, suas obras seguem reeditadas; "O Caderno Dourado" é estudado em universidades como texto pós-moderno e feminista. Influenciou autoras como Margaret Atwood e Zadie Smith. Críticas persistem sobre seu eurocentrismo e ambivalência racial. Arquivos em universidades como East Anglia preservam seu legado. Em 2023, centenário de nascimento gerou simpósios. Sua desconfiança de narrativas oficiais ressoa em debates sobre fake news e identidade.

Pensamentos de Doris Lessing

Algumas das citações mais marcantes do autor.

"Pois essas criaturas são, em sua maioria, maldosas e assassinas por natureza, só capazes de tolerar os outros se se assemelharem a elas, capazes de se massacrarem devido a pequenas diferenças na pigmentação da pele ou no aspecto. Além disso, não toleram as pessoas que não pensam como elas. Embora saibam perfeitamente, em teoria, que a superfície do globo habitado é dividida em, ilhares de zonas, cada qual com seu sistema de crença religiosa ou científica, e embora saibam perfeitamente que é por acaso que algum indivíduo entre eles nasce esta ou naquela zona, esta ou aquela zona de crença, esse conhecimento teórico não os impede de odiar os estrangeiros em sua determinada região, e, se não os molestam, então os isolam de todos os modos possíveis... (Roteiro para um passeio ao inferno)"
"A verdade é que nós... só podemos torelá-los enquanto eles obedecem às instruções, resolverem seus negócios, sua vida em comum, de modo a adaptar-se às necessidades do Sistema. Mas eles parecem não conseguir guardar por muito tempo essa verdade simples, embora isso lhes tenha sido repetido várias vezes, e isso por causa de uma outra característica muito poderosa do pensamento deles, que é que tudo o que lhes dizem é distorcido para se adaptar a seus próprios preconceitos pessoais ou de grupo, e depois acrescentado, com mais uma pedrinha, às meias verdades que eles já cultivam. Portanto, esperamos, confiantes - ou poderíamos ter esperado no passado, antes desse grande e atual... passo à frente, sob a influência do Vento Solar da Mudança... o dever humano como parte da Harmonia - estará correndo como um cão danado, estará distorcido completamente, logo se tornará propriedade de cem seitas em luta, cada qual alegando que a sua versão é a correta. Mas esse tempo já passou, ou quase. A capacidade de ver as coisas como elas são, em suas múltiplas relações - em outras palavras, a Verdade - será parte do novo equipamento da humanidade, que em breve será criado. Graças, naturalmente, não a Nós, mas a... (Roteiro para um passeio ao inferno)"
"Todos os homens fazem cavernas de sombras para os olhos, Com chapéus e mãos, órbitas, pestanas, testas, Para as delicadas pupilas ousarem olhar para a Luz. Nas terras do norte também, onde a luz não tem sombra, O homem ergue a mão para proteger a vista; É coisa que já vi fazerem no luar forte. Diante de qualquer clarão muito forte, essa mão vigente Corre ao seu posto, fazendo um escuro; Como os do gato, os olhos do homem ficam grandes e suaves de noite. São olhos novos, ainda não habituados a ver. Absorvendo facetas, individuais, Ainda sem habilidade para os usarem redondos e certos. Pensem: animais de quatro nós éramos, baixos, Com o olhar horizontal bem guardado Daquela claridade vibrante, chamejante de arder os olhos. Porém tinha de vir esse dia inevitável: Um animalzinho valente ergueu a pata ao galho, Puxou-se para cima - e cambaleou à sua altura. Nossos bebês humanos nos mostraram como foi. Eles escalam; nós, vigilantes, Deixamos que aprendam a loucura de seu susto. Naquela primeira aventura, a luz desceu em saudação, De igual a igual, um faiscar na mente, E o animal pensou ser "anjo" - como bem podíamos. Uma pata, livre da terra, agarrava-se ao galho liso; A outra, liberta, esperava, enquanto os olhos Erguiam-se afinal ás aves e nuvens voando. E assim ele se equilibrou ali, um animal de pé. E o anjo, poupando o que ele mal ganhara, Levantou aquela mão inerte para proteger sua vista, Naquele gesto mais comum que é feito. O homem não pode olhar diretamente para o sol. (Roteiro para um passeio ao inferno)"