Introdução
Dino Buzzati Traverso nasceu em 16 de outubro de 1906, em Belluno, na região de Vêneto, Itália, e faleceu em 28 de janeiro de 1972, em Milão. Jornalista de profissão, atuou por décadas no Corriere della Sera, um dos principais jornais italianos, onde cobriu eventos como a Guerra Italo-Etíope e a Guerra Civil Espanhola. Como escritor, destacou-se com narrativas que mesclam realismo e elementos fantásticos, frequentemente explorando o passageiro do tempo, a solidão e o absurdo da existência humana.
Seu romance mais célebre, Il deserto dei Tartari (1940, publicado no Brasil como O deserto dos tártaros em 2007), retrata a espera inútil de um oficial em uma fortaleza remota, simbolizando a condição humana ante o inexorável. Em 1958, Buzzati venceu o Prêmio Strega, o equivalente italiano ao Pulitzer literário, com a coletânea Sessanta racconti. Outras obras incluem contos em Naquele exato momento (edição brasileira 2004), o livro infantil A famosa invasão dos ursos na Sicília (2011 no Brasil, original 1945), Poema em quadrinhos (2010) e Um amor (2019).
Como ilustrador, contribuiu para suas próprias obras e revistas. Sua produção reflete o contexto italiano do fascismo, pós-guerra e boom econômico, com influências de Kafka e o existencialismo, sem aderir a escolas literárias específicas. Buzzati importa por capturar a angústia moderna de forma acessível, misturando jornalismo preciso com fantasia sutil. Até 2026, suas obras continuam reeditadas globalmente, influenciando literatura e cinema (adaptações como o filme O deserto dos tártaros de 1976).
Origens e Formação
Buzzati nasceu em uma família burguesa de tradição lombarda. Seu pai, Giulio Cesare Buzzati Traverso, era um renomado advogado e professor de Direito em Belluno. A mãe, Maria Luigi Abate, descendia de uma família de origem escocesa pelo lado paterno, o que conferia à casa um ar cosmopolita. Era o segundo de quatro filhos; perdeu o pai aos 12 anos, em 1918, o que marcou sua infância.
A família mudou-se para Milão em 1922. Buzzati frequentou o liceu clássico Cesare Beccaria e, em 1924, matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Milão. Formou-se em 1928, mas nunca exerceu a advocacia. Desde jovem, demonstrava interesse pela escrita e desenho. Publicou seu primeiro conto aos 22 anos e colaborou com jornais estudantis.
Em 1928, ingressou no Corriere della Sera como redator corrector, graças a uma carta de apresentação do pai falecido. Rapidamente ascendeu: em 1929, enviaram-no à China como correspondente (viagem cancelada), mas ele cobriu feiras e eventos locais. Sua formação jornalística moldou seu estilo literário: observação precisa, economia narrativa e fatos ancorados na realidade, mesmo em ficções fantásticas. Não há registros de influências formais além do ambiente familiar culto e leituras clássicas italianas.
Trajetória e Principais Contribuições
A carreira jornalística de Buzzati durou 44 anos no Corriere della Sera. Cobriu a Exposição de Milão (1933), a Guerra Italo-Etíope (1935-1936), enviando reportagens vívidas de Asmara e Adis Abeba. Em 1939, reportou a Guerra Civil Espanhola. Pós-Segunda Guerra, tornou-se cronista parisiense, crítico de arte e editorialista. Dirigiu peças de teatro e óperas, como Procedura penale (1962).
Literariamente, estreou com o romance Barnabò delle montagne (1933), sobre um guarda-florestal demitido por piedade excessiva. Seguiu Il deserto dei Tartari (1940), escrito durante o confinamento inicial da guerra, traduzido em dezenas de idiomas e considerado clássico moderno. Coletâneas de contos como I sette messaggeri (1942) e Paese di Fiaba (1935) introduzem seu "realismo mágico" italiano: eventos sobrenaturais em cenários cotidianos.
Em 1958, Sessanta racconti lhe rendeu o Prêmio Strega, consolidando-o como mestre do conto breve. Outros romances: Il grande ritratto (1960), sobre um quadro que envelhece; Un amore (1969, edição brasileira 2019), história de obsessão erótica. Para crianças, La famosa invasione degli orsi in Sicilia (1945, brasileira 2011), conto alegórico animado em 1961 e adaptado para cinema em 2019. Poema a fumetti (1969, brasileira 2010) narra o Juízo Final em quadrinhos, mesclando texto e ilustrações próprias. Sette piani (1937) explora burocracia opressiva.
Como ilustrador, desenhou capas para suas obras e reportagens. Contribuições teatrais incluem Un caso clinico (1953). Sua prosa influenciou o neorrealismo fantástico italiano.
- Principais marcos cronológicos:
- 1928: Ingresso no Corriere.
- 1933: Primeiro romance.
- 1940: O deserto dos tártaros.
- 1945: Livro infantil premiado.
- 1958: Prêmio Strega.
- 1969: Poema em quadrinhos e Um amor.
- 1972: Morte.
Vida Pessoal e Conflitos
Buzzati casou-se em 1963, aos 57 anos, com Almerina di Domenica, uma jovem funcionária de 23 anos do Corriere, com quem viveu até a morte. Não tiveram filhos. Manteve relações próximas com a família, especialmente o irmão Edoardo, pintor.
Politicamente discreto durante o fascismo, evitou militância, focando em reportagens neutras. Pós-guerra, criticou o comunismo em colunas. Diagnosticado com câncer pulmonar em 1971 (fumante convicto), sofreu em silêncio, recusando tratamentos agressivos por fé católica. Convertido tardiamente, frequentou missas e escreveu sobre espiritualidade em diários póstumos (Cronache terrestri, 1972).
Conflitos incluíram críticas por suposto escapismo em tempos de guerra – O deserto dos tártaros visto como alegoria fascista ou antifascista, conforme intérpretes. No jornalismo, enfrentou censura mussoliniana. Não há relatos de escândalos ou crises graves; sua vida foi marcada por rotina milanesa, ópera (era tenor aficionado) e montanhismo juvenil.
Legado e Relevância Atual (até 2026)
Buzzati deixou cerca de 20 livros, centenas de contos e ilustrações. Suas obras foram traduzidas para mais de 30 idiomas, com reedições constantes no Brasil (ex.: edições recentes de 2004-2019). Influenciou autores como Italo Calvino e o realismo mágico latino-americano. Adaptações incluem filmes (O deserto dos tártaros, 1976, com Vittorio Gassman) e animações (A famosa invasão, 2019).
Até fevereiro 2026, estudos acadêmicos destacam sua visão profética da alienação burocrática e ecologia sutil (Barnabò). Exposições de desenhos ocorrem em Milão; o Prêmio Buzzati homenageia jornalistas. No Brasil, edições da Cosac Naify e Companhia das Letras mantêm-no vivo para leitores de ficção especulativa. Seu estilo – jornalístico, irônico, fantástico – ressoa em era de ansiedade digital, sem projeções futuras. Não há informação sobre prêmios póstumos recentes além de reedições.
