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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Charles Bukowski (1920-1994) foi um poeta e escritor alemão que viveu e morreu nos Estados Unidos. Autor de diversas obras é um dos escritores mais conhecidos dos Estados Unidos.

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Frases - Página 19

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"Há bastante deslealdade, ódio, violência, absurdo no ser humano comum para suprir qualquer exército em qualquer dia. E o melhor no assassinato são aqueles que pregam contra ele. E o melhor no ódio são aqueles que pregam amor, e o melhor na guerra, são aqueles que pregam a paz. Aqueles que pregam Deus precisam de Deus, aqueles que pregam paz não têm paz, aqueles que pregam amor não têm amor. Cuidado com os pregadores, cuidado com os sabedores. Cuidado com aqueles que estão sempre lendo livros. Cuidado com aqueles que detestam pobreza ou que são orgulhosos dela. Cuidado com aqueles que elogiam fácil, porque eles precisam de elogios de volta. Cuidado com aqueles que censuram fácil, eles têm medo daquilo que não conhecem. Cuidado com aqueles que procuram constantes multidões, eles não são nada sozinhos. Cuidado com o homem comum, com a mulher comum, cuidado com o amor deles. O amor deles é comum, procura o comum, mas há genialidade em seu ódio, há bastante genialidade em seu ódio para matar você, para matar qualquer um. Sem esperar solidão, sem entender solidão eles tentarão destruir qualquer coisa que seja diferente deles mesmos."
"Eu sabia que era não inteiramente são. Também sabia, uma percepção que eu tinha desde a infância, que havia algo de estranho em mim. Era como se meu destino fosse ser um assassino, um ladrão de banco, um santo, um estuprador, um monge, um ermitão. Precisava de um lugar isolado para me esconder. Os cortiços eram lugares nojentos. A vida das pessoas sãs, dos homens comuns, era uma estupidez pior do que a morte. Parecia não haver alternativa possível. A educação também parecia uma armadilha. A pouca educação que eu tinha me permitido havia me tornado ainda mais desconfiado. O que eram médicos, advogados, cientistas? Apenas homens que tinham permitido que sua liberdade de pensamento e a capacidade de agir como indivíduos lhes fosse retirada. Voltei para meu barracão e enchi a cara... Sentado ali, bebendo, considerei a opção do suicídio, mas me senti estranhamente apaixonado pelo meu corpo, pela minha vida. Apesar das cicatrizes que marcavam meu corpo e minha existência, ambos eram propriedades minhas. Eu podia me levantar agora e sorrir com escárnio para meu reflexo no espelho da cômoda: se você tem que ir, que leve ao menos uns oito junto, uns dez, uns vinte..."
"E minhas próprias coisas eram tão más e tristes, como o dia em que nasci. A única diferença era que agora eu podia beber de vez em quando, apesar de nunca ser o suficiente. A bebida era a única coisa que não deixava o homem ficar se sentindo atordoado e inútil o tempo todo. Tudo mais te pinicando, te ferindo, despedaçando. E nada era interessante, nada. As pessoas eram limitadas e cuidadosas, todas iguais. E eu teria que viver com esses putos pelo resto de minha vida, pensava. Deus, eles todos tinham cus, e órgãos sexuais e suas bocas e seus sovacos. Eles cagavam e tagarelavam e eram tão inertes quanto bosta de cavalo. As garotas pareciam boas à distancia, o sol provocando transparências em seus vestidos, refletido em seus cabelos. Mas chegue perto e escute o que elas tem na cabeça sendo vomitado pelas suas bocas. Você ficava com vontade de cavar um buraco sobre um morro e ficar escondido com uma metralhadora. Certamente eu nunca seria capaz de ser feliz, de me casar, nunca poderia ter filhos. Mas que diabo, eu nem conseguia um emprego de lavador de pratos. Talvez eu pudesse ser um ladrão de bancos. Alguma porra. Alguma coisa flamejante, com fogo. Você só tinha direito a uma tentativa. Por que ser um limpador de vidraças?"
"Um Poema de Amor Todas as mulheres todos os beijos as diferentes formas que amam e falam e carecem. suas orelhas todas elas têm orelhas e gargantas e vestidos e sapatos e automóveis e ex- maridos. na maioria das vezes as mulheres são muito quentes elas me lembram torrada com a manteiga derretida nela. está estampado no olhar: elas foram tomadas elas foram enganadas. eu nunca sei o que fazer por elas. sou um bom cozinheiro um bom ouvinte mas nunca aprendi a dançar — eu estava ocupado com coisas maiores. mas eu apreciei suas variadas camas fumando cigarros olhando para o teto. não fui nocivo nem desleal. apenas um aprendiz. eu sei que todas têm pés e descalças elas andam pelo piso enquanto eu olho suas modestas bundas no escuro. sei que gostam de mim, algumas até me amam mas eu amo muito poucas. algumas me dão laranjas e vitaminas; outras falam mansamente da infância e pais e paisagens; algumas são quase loucas mas nenhuma delas deixa de fazer sentido; algumas amam bem, outras nem tanto; as melhores no sexo nem sempre são as melhores em outras coisas; cada uma tem seus limites como eu tenho limites e nós aprendemos cada qual rapidamente. todas as mulheres todas as mulheres todos os quartos os tapetes as fotos as cortinas, é algo como uma igreja raramente se ouve uma risada. essas orelhas esses braços esses cotovelos esses olhos olhando, o afeto e a carência eu tenho agüentado eu tenho agüentado."
"Nascidos como isso Adentro isso Enquanto as caras de giz sorriem Enquanto a Srª Morte ri Enquanto os elevadores quebram Enquanto cenários políticos dissolvem Enquanto o empacotador do supermercado ganha um diploma universitário Enquanto peixes oleosos cospem fora suas presas oleosas Enquanto o sol é mascarado Nós somos Nascidos como isso Adentro isso Adentro essas guerras cuidadosamente loucas Adentro a visão de janelas de fábricas quebradas de vazio Adentro bares onde as pessoas não mais conversam umas com as outras Adentro trocas de soco que acabam como tiroteios e esfaqueamentos Nascidos adentro isso Adentro hospitais que são tão caros que é mais barato morrer Adentro advogados que cobram tanto que é mais barato declarar culpa Adentro um país onde as cadeias estão cheias e os hospícios fechados Adentro um lugar onde as massas promovem idiotas a heróis ricos Nascidos adentro isso Andando e vivendo através disso Morrendo por causa disso Emudecidos por causa disso Castrados Depravados Deserdados Por causa disso Enganados por isso Usados por isso Emputecidos por isso Tornados loucos e doentes por isso Tornados violentos Tornados desumanos Por isso O coração enegrecido Os dedos se estendem para a garganta A arma A faca A bomba Os dedos se estendem em direção a um deus irresponsivo Os dedos se estendem para a garrafa A pílula A pólvora Nós somos nascidos adentro essa lamentável mortalidade Nós somos nascidos adentro um governo há 60 anos em dívida Que logo será incapaz de pagar até mesmo os juros dessa dívida E os bancos irão queimar Dinheiro será inútil Haverá assassinato livre e impune nas ruas Serão armas e quadrilhas nômades Terra será inútil Comida será um rendimento decrescente Força nuclear será tomada pela multidão Explosões irão continuamente sacudir a Terra Homens-robôs radioativos irão espreitar uns aos outros Os ricos e os escolhidos irão assistir de plataformas espaciais O Inferno de Dante se fará parecer com um parque de diversões infantil O Sol não será visto e será sempre noite Árvores irão morrer Toda a vegetação irá morrer Homens radioativos comerão a carne de homens radioativos O mar será envenenado Os lagos e rios irão sumir Chuva será o novo ouro Os corpos em apodrecimento de homens e animais irão feder no vento escuro Os últimos poucos sobreviventes serão tomados por novas e terríveis doenças E as plataformas espaciais serão destruídas pelo desgaste O esgotamento dos suprimentos O efeito natural do decaimento geral E haverá o mais bonito silêncio jamais ouvido Nascido fora disso. O Sol ainda escondido aguarda o próximo capítulo."
"Finalmente chegou o dia do Baile de Formatura. Foi realizado no ginásio feminino com música ao vivo, uma banda de verdade. Não sei por que, mas andei até lá naquela noite, os quatros quilômetros que separavam a escola da casa dos meus pais. Fiquei do lado de fora, no escuro olhando para o baile, através das janelas gradeadas, completamente admirado. Todas as garotas pareciam extremamente crescidas, imponentes, adoráveis, trajando vestidos longos, e todas exalando beleza. Quase não as reconheci. E os garotos em seus smokings estavam muito bem, dançavam com perfeição, cada qual segurando uma garota nos braços, seus rostos pressionados contra os cabelos delas. Todos dançavam com extrema graça, e a música vinha alta e límpida e boa, potente. Então vislumbrei o reflexo do meu rosto a admirá-los marcado por espinhas e cicatrizes, minha camisa surrada. Eu era como uma fera da selva atraída pela luz, olhando para dentro. Por que eu tinha vindo? Sentia-me mal. Mas continuava assistindo a tudo. A dança terminou. Houve uma pausa. Os casais trocavam palavras com facilidade. Era algo natural e civilizado. Onde eles tinham aprendido a conversar e a dançar? Eu não podia conversar ou dançar. Todo mundo sabia alguma coisa que eu desconhecia. As garotas eram tão lindas; os rapazes, tão elegantes. Eu ficaria aterrorizado só de olhar para uma daquelas garotas, o que dizer ficar sozinho em sua companhia. Mirá-la nos olhos ou dançar com ela estaria além das minhas forças. E ainda assim eu tinha consciência de que o que via não era tão simples e nem bonito como aparentava ser. Havia um preço a ser pago por aquilo tudo, uma falsidade generalizada na qual facilmente se poderia acreditar e que poderia ser o primeiro passo para um beco sem saída. A banda voltou a tocar e as garotas e os garotos recomeçaram a dança, e as luzes sobre suas cabeças giravam, lançando sobre os casais reflexos dourados, depois vermelhos, azuis, verdes e então novamente dourados. Enquanto eu os observava, dizia para mim mesmo que um dia minha dança iria começar. Quando este dia chegasse teria alguma coisa que eles não têm. De repente, contudo, aquilo se tornou demais para mim. Eu os odiei. Odiei sua beleza, sua juventude sem problemas e, enquanto os via dançar por entre o mar de luzes mágicas e coloridas, abraçados uns aos outros, sentindo-se tão bem, pequenas crianças ilesas, desfrutando de sua sorte temporária, odiei-os por terem algo que eu ainda não tinha, e disse para mim mesmo, repeti para mim mesmo, algum dia serei tão feliz quanto vocês, esperem para ver. Seguiram dançando, enquanto eu repetia minha frase para eles."