"Aluna Conservo-te o meu sorriso para, quando me encontrares, veres que ainda tenho uns ares de aluna do paraíso... Leva sempre a minha imagem a submissa rebeldia dos que estudam todo o dia sem chegar à aprendizagem... - e, de salas interiores, por altíssimas janelas, descobrem coisas mais belas, rindo-se dos professores... Gastarei meu tempo inteiro nessa brincadeira triste; mas na escola não existe mais do que pena e tinteiro! E toda a humana docência para inventar-me um ofício ou morre sem exercício ou se perde na experiência..."
Voltar para Autores
Ler biografia completa

Cecília Meireles
Cecília Meireles (1901-964) foi uma poetisa, jornalista e professora brasileira, considerada umas das mais importantes escritoras do país, com mais de 50 obras publicadas
233 pensamentos
Frases - Página 17
Mostrando página 17 de 20 (233 frases no total)
"BERCEUSE PARA QUEM MORRE Dorme... Dorme... Rolam pelas vertentes das montanhas, as estrelas cadentes... Meu amor, a noite mansa dança,dança no silêncio do Jardim... Lento, um cipreste balança... Tu, descansa, meu amor, perto de mim... Dorme, dorme como as rosas noturnas, quando há trevas perigosas de furnas... Meu amor, não se descreve esta neve que dos céus descendo vem... É um beijo breve... O mais breve... O mais leve... Que não se deu em ninguém... Dorme... O luar se espalha triste na altura... Quem sabe, é, tudo que existe, loucura?"
"Improviso do Amor-Perfeito Naquela nuvem, naquela, mando-te meu pensamento: que Deus se ocupe do vento. Os sonhos foram sonhados, e o padecimento aceito. E onde estás, Amor-Perfeito ? Imensos jardins da insônia, de um olhar de despedida deram flor por toda a vida. Ai de mim que sobrevivo sem o coração no peito. E onde estás, Amor-Perfeito ? Longe, longe, atrás do oceano que nos meus olhos se alteia, entre pálpebras de areia... Longe, longe... Deus te guarde sobre o seu lado direito, como eu te guardava do outro, noite e dia, Amor-Perfeito."
"O que amamos está sempre longe de nós: e longe mesmo do que amamos - que não sabe de onde vem, aonde vai nosso impulso de amor. O que amamos está como a flor na semente, entendido com medo e inquietude, talvez só para em nossa morte estar durando sempre. Como as ervas do chão, como as ondas do mar, os acasos se vão cumprindo e vão cessando. Mas, sem acaso, o amor límpido e exato jaz. Não necessita nada o que em si tudo ordena: cuja tristeza unicamente pode ser o equívoco do tempo, os jogos da cegueira com setas negras na escuridão."
"Ninguém venha me dar vida, que estou morrendo de amor, que estou feliz de morrer, que não tenho mal nem dor, que estou de sonho ferido, que não me quero curar, que estou deixando de ser, e não quero me encontrar, que estou dentro de um navio, que sei que vai naufragar, já não falo e ainda sorrio, porque está perto de mim o dono verde do mar que busquei desde o começo, e estava apenas no fim. Corações, por que chorais? Preparai meu arremesso para as algas e os corais. Fim ditoso, hora feliz: guardai meu amor sem preço, que só quis quem não me quis."
"Como se morre de velhice ou de acidente ou de doença, morro, Senhor, de indiferença. Da indiferença deste mundo onde o que se sente e se pensa não tem eco, na ausência imensa. Na ausência, areia movediça onde se escreve igual sentença para o que é vencido e o que vença. Salva-me, Senhor, do horizonte sem estímulo ou recompensa onde o amor equivale à ofensa. De boca amarga e de alma triste sinto a minha própria presença num céu de loucura suspensa. (Já não se morre de velhice nem de acidente nem de doença, mas, Senhor, só de indiferença.)"
"Eu sou essa pessoa a quem o vento chama, a que não se recusa a esse final convite, em máquinas de adeus,sem tentação de volta. Todo horizonte é um vasto sopro de incerteza: Eu sou essa pessoa a quem o vento leva: já de horizontes libertada,mas sozinha. Se a Beleza sonhada é maior que a vivente, dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho ? Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga. Pelos mundos do vento em meus cílios guardadas vão as medidas que separam os abraços. Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina: Agora és livre,se ainda recordas (Solombra, p. 794)"
"Suspensas Fugas Para pensar em ti todas as horas fogem: o tempo humano expira em lágrima e cegueira. Tudo são praias onde o mar afoga o amor. Quero a insônia, a vigília, uma clarividência deste instante que habito – ai, meu domínio triste!, ilha onde eu mesma nada sei fazer por mim. Vejo a flor; vejo no ar a mensagem das nuvens - e na minha memória és imortalidade - vejo as datas, escuto o próprio coração. E depois o silêncio. E teus olhos abertos nos meus fechados. E esta ausência em minha boca: pois bem sei que falar é o mesmo que morrer: Da vida à Vida, suspensas fugas."
"O Menino Azul O menino quer um burrinho para passear. Um burrinho manso, que não corra nem pule, mas que saiba conversar. O menino quer um burrinho que saiba dizer o nome dos rios, das montanhas, das flores, — de tudo o que aparecer. O menino quer um burrinho que saiba inventar histórias bonitas com pessoas e bichos e com barquinhos no mar. E os dois sairão pelo mundo que é como um jardim apenas mais largo e talvez mais comprido e que não tenha fim. (Quem souber de um burrinho desses, pode escrever para a Ruas das Casas, Número das Portas, ao Menino Azul que não sabe ler.)"
"Canção Não te fies do tempo nem da eternidade, que as nuvens me puxam pelos vestidos, que os ventos me arrastam contra o meu desejo! Apressa-te, amor, que amanhã eu morro, que amanhã morro e não te vejo! Não demores tão longe, em lugar tão secreto, nácar de silêncio que o mar comprime, ó lábio, limite do instante absoluto! Apressa-te, amor, que amanhã eu morro, que amanhã eu morro e não te escuto! Aparece-me agora, que ainda reconheço a anêmona aberta na tua face e em redor dos muros o vento inimigo... Apressa-te, amor, que amanhã eu morro, que amanhã eu morro e não te digo..."
"Canção No desequilíbrio dos mares, as proas giram sozinhas... Numa das naves que afundaram é que certamente tu vinhas. Eu te esperei todos os séculos sem desespero e sem desgosto, e morri de infinitas mortes guardando sempre o mesmo rosto Quando as ondas te carregaram meu olhos, entre águas e areias, cegaram como os das estátuas, a tudo quanto existe alheias. Minhas mãos pararam sobre o ar e endureceram junto ao vento, e perderam a cor que tinham e a lembrança do movimento. E o sorriso que eu te levava desprendeu-se e caiu de mim: e só talvez ele ainda viva dentro destas águas sem fim."
"Canção Pus o meu sonho num navio e o navio em cima do mar; - depois, abri o mar com as mãos, para o meu sonho naufragar. Minhas mãos ainda estão molhadas do azul das ondas entreabertas, e a cor que escorre de meus dedos colore as areias desertas. O vento vem vindo de longe, a noite se curva de frio; debaixo da água vai morrendo meu sonho, dentro de um navio... Chorarei quanto for preciso, para fazer com que o mar cresça, e o meu navio chegue ao fundo e o meu sonho desapareça. Depois, tudo estará perfeito; praia lisa, águas ordenadas, meus olhos secos como pedras e as minhas duas mãos quebradas."