"O MUNDO DOS HOMENS ENVOLVE-ME O mundo dos homens envolve-me, porém não me abraça. Eu não tenho nada com a onda, mesmo que naufrague dentro dela. Se tu não sentes esta coisa simples que eu sinto, esta unidade que não se rompe, mesmo quando compreende e participa... (Então, ó deuses, de que somos, de quem somos, quem somos, e como provaremos sermos todos irmãos?)"
Voltar para Autores
Ler biografia completa

Cecília Meireles
Cecília Meireles (1901-964) foi uma poetisa, jornalista e professora brasileira, considerada umas das mais importantes escritoras do país, com mais de 50 obras publicadas
233 pensamentos
Frases - Página 14
Mostrando página 14 de 20 (233 frases no total)
"Apresentação Aqui está minha vida - esta areia tão clara com desenhos de andar dedicados ao vento. Aqui está minha voz - esta concha vazia, sombra de som curtindo o seu próprio lamento. Aqui está minha dor - este coral quebrado, sobrevivendo ao seu patético momento. Aqui está minha herança - este mar solitário, que de um lado era amor e, do outro, esquecimento."
"TUMULTO Tempestade... O desgrenhamento das ramagens... O choro vão da água triste, do longo vento, vem morrer-me no coração. A água triste cai como um sonho, sonho velho que se esqueceu... ( Quando virás, ó meu tristonho Poeta, ó doce troveiro meu!...) E minha alma, sem luz nem tenda, passa errante, na noite má, à procura de quem me entenda e de quem me consolará..."
"De longe te hei de amar – da tranquila distância em que o amor é saudade e o desejo, constância. Do divino lugar onde o bem da existência é ser eternidade e parecer ausência. Quem precisa explicar o momento e a fragrância da Rosa, que persuade sem nenhuma arrogância? E, no fundo do mar, a Estrela, sem violência, cumpre a sua verdade, alheia à transparência."
"Pássaro Aquilo que ontem cantava já não canta. Morreu de uma flor na boca: não do espinho na garganta. Ele amava a água sem sede, e, em verdade, tendo asas, fitava o tempo, livre de necessidade. Não foi desejo ou imprudência: não foi nada. E o dia toca em silêncio a desventura causada. Se acaso isso é desventura: ir-se a vida sobre uma rosa tão bela, por uma tênue ferida."
"De que são feitos os dias? - De pequenos desejos, vagarosas saudades, silenciosas lembranças. Entre mágoas sombrias, momentâneos lampejos: vagas felicidades, inatuais esperanças. De loucuras, de crimes, de pecados, de glórias - do medo que encadeia todas essas mudanças. Dentro deles vivemos, dentro deles choramos, em duros desenlaces e em sinistras alianças..."
"Serenata Permita que eu feche os meus olhos, pois é muito longe e tão tarde! Pensei que era apenas demora, e cantando pus-me a esperar-te. Permita que agora emudeça: que me conforme em ser sozinha. Há uma doce luz no silêncio, e a dor é de origem divina. Permita que eu volte o meu rosto para um céu maior que este mundo, e aprenda a ser dócil no sonho como as estrelas no seu rumo."
"COMPRAS DE NATAL São as cestinhas forradas de seda, as caixas transparentes, os estojos, os papéis de embrulho com desenhos inesperados, os barbantes, atilhos, fitas, o que na verdade oferecemos aos parentes e amigos. Pagamos por essa graça delicada da ilusão. E logo tudo se esvai, por entre sorrisos e alegrias. Durável — apenas o Meninozinho nas suas palhas, a olhar para este mundo."
"OS MORTOS SOBEM AS ESCADAS Os mortos sobem as escadas, sorrindo com seus claros dentes. Alegrias que nunca tiveram quando eram vivos e presentes, felicidades que apenas sonharam e foram lágrimas somente. Os mortos sobem as escadas: inesperados visitantes vindos dos reinos sem fronteiras às nossas casas, dessemelhantes. Ai, bem se vê que não estão vendo que um vivo é um morto mais distante!"
"GATO NA GARAGEM Que imensa preguiça! Um gato se estica longo, de pelica, de pluma e peliça. A noite é de tubos de rodas e cubos borracha e aço curvos em subsolos turvos. Que noite! uma poça de sombra na boca. Cega, se alvoroça e infla, a pupila oca. Luminosos manda seus olhos; verde anda em luz; anda e nada e é dono do nada. A noite postiça! E o gato se estica em sua pelica, em sua peliça."
"Primeiro Motivo da Rosa Vejo-te em seda e nácar, e tão de orvalho trêmula, que penso ver, efêmera, toda a Beleza em lágrimas por ser bela e ser frágil. Meus olhos te ofereço: espelho para a face que terás, no meu verso, quando, depois que passes, jamais ninguém te esqueça. Então, de seda e nácar, toda de orvalho trêmula, serás eterna. E efêmero o rosto meu, nas lágrimas do teu orvalho... E frágil."
"Se não chover nem ventar, se a lua e o sol forem limpos e houver festa pelo mar, - ir-te-ei visitar. Se o chão se cobrir de flor, e o endereço estiver claro, e o mundo livre de dor, - ir-te-ei ver, amor. Se o tempo não tiver fim, se a terra e o céu se encontrarem à porta do teu jardim - espera por mim. Cantarei minha canção com violas de eternamente que são de alma e em alma estão. - De outro modo, não."