Introdução
Adib Domingos Jatene nasceu em 16 de dezembro de 1929, em Marília, interior de São Paulo, e faleceu em 15 de novembro de 2023, aos 93 anos, em São Paulo. Cirurgião cardiovascular de renome internacional, ele é reconhecido por pioneirismos na cirurgia cardíaca no Brasil, especialmente em procedimentos pediátricos. Sua maior contribuição foi a criação da operação de switch arterial para correção da transposição das grandes artérias, técnica batizada como "procedimento de Jatene" e adotada globalmente desde os anos 1980.
Jatene fundou e dirigiu o Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da USP, transformando-o em um dos maiores centros de cardiologia da América Latina. Realizou mais de 25 mil cirurgias ao longo da carreira, com taxas de mortalidade abaixo da média mundial. Além da prática clínica, ocupou cargos públicos como ministro da Saúde nos governos Collor de Mello (1990-1992) e Fernando Henrique Cardoso (1998-2002), influenciando políticas de saúde no país. Sua trajetória reflete o avanço da medicina brasileira em um contexto de recursos limitados, priorizando inovação e treinamento de profissionais. Até sua morte, permaneceu ativo no InCor, simbolizando dedicação à cardiologia.
Origens e Formação
Adib Jatene cresceu em Marília, cidade paulista conhecida por sua agroindústria na época. Filho de imigrantes libaneses, seu pai era comerciante, o que proporcionou uma infância estável, mas sem detalhes profundos sobre influências familiares diretas disponíveis em registros consolidados. Desde cedo, demonstrou interesse pela medicina, ingressando na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) em 1948.
Formou-se em 1953, aos 24 anos, e iniciou residência em cirurgia geral no Hospital das Clínicas. Nos anos 1950, especializou-se em cirurgia torácica sob orientação de professores como o cirurgião Euryclides de Jesus Zerbini, pioneiro em cirurgias cardíacas no Brasil. Zerbini realizou o primeiro transplante de coração no país em 1968, mas Jatene já atuava em procedimentos torácicos complexos. Para aprimorar técnicas, viajou aos Estados Unidos em 1959, estagiando no Texas Heart Institute, em Houston, sob o cirurgião Denton Cooley, referência mundial em cirurgia cardiovascular.
De volta ao Brasil em 1960, Jatene integrou o Serviço de Cirurgia Cardiovascular do Hospital das Clínicas, então incipiente. Em 1962, com apoio da USP e do governo estadual, fundou o núcleo que daria origem ao InCor. Sua formação combinou rigor acadêmico brasileiro com exposição a padrões americanos, preparando-o para inovações locais.
Trajetória e Principais Contribuições
A carreira de Jatene ganhou impulso nos anos 1960. Em 1964, ele realizou a primeira cirurgia de revascularização miocárdica no Brasil, técnica para tratar obstruções coronárias. Ao longo da década, expandiu o serviço cardiovascular do Hospital das Clínicas, treinando dezenas de cirurgiões. Em 1975, o InCor foi inaugurado oficialmente, com Jatene como diretor-superintendente até 2017. O instituto cresceu para 144 leitos, realizando cerca de 3 mil cirurgias anuais e formando milhares de profissionais.
Seu marco principal veio em 1980: a correção anatômica da transposição das grandes artérias (TGA), malformação congênita letal em recém-nascidos. Antes, tratava-se com cirurgias paliativas como a de Mustard ou Senning, que deixavam sequelas. Jatene propôs o "switch arterial", reposicionando as artérias pulmonar e aorta às suas posições corretas, preservando o ventrículo esquerdo sistêmico. A primeira operação bem-sucedida ocorreu em 15 de maio de 1980, em bebê de 21 dias, com sobrevida de longo prazo. A técnica, publicada em revistas como o Journal of Thoracic and Cardiovascular Surgery, tornou-se padrão ouro mundial, com mais de 90% de sucesso em centros experientes.
Nos anos 1980 e 1990, Jatene expandiu para transplantes cardíacos. Embora o primeiro no Brasil tenha sido de Zerbini em 1968 (com falha), Jatene realizou o segundo em 1985 e consolidou o programa do InCor, com mais de 1,5 mil transplantes até 2023. Introduziu cirurgias minimamente invasivas e treinou equipes para válvulas e aneurismas.
Em esfera pública, assumiu a Saúde em março de 1990 no governo Collor, implementando reformas como o Programa Saúde da Família (embrião do PSF). Renunciou em 1992 devido a crises políticas. Retornou em 1998 com FHC, gerenciando epidemias como dengue e avançando vacinas. Deixou o cargo em 2002. Paralelamente, publicou cerca de 200 artigos científicos e livros como Cirurgia Cardiovascular (1980s). Recebeu honrarias como a Ordem Nacional do Mérito Científico (1995) e título de doutor honoris causa pela USP.
Vida Pessoal e Conflitos
Jatene casou-se com Maria Helena, com quem teve cinco filhos, incluindo o cirurgião cardíaco Marcelo Jatene. A família manteve-se discreta, priorizando a privacidade. Ele residia em São Paulo, próximo ao InCor, e mantinha rotina de trabalho intensa até idade avançada. Não há registros públicos de grandes escândalos pessoais, mas enfrentou críticas políticas: no governo Collor, foi acusado de favorecimentos em compras de equipamentos, sem condenações judiciais confirmadas.
Profissionalmente, lidou com limitações orçamentárias nos anos 1970-1980, importando próteses caras em tempos de inflação. Durante sua gestão no InCor, houve debates sobre priorização de cirurgias pediátricas versus adultas, mas o instituto manteve reputação de excelência. Em 2018, aos 88 anos, passou a direção ao filho, mas continuou operando. Sua saúde declinou nos últimos anos, com internações por infecções, culminando em morte por complicações respiratórias em 2023. Familiares e colegas destacaram sua ética e simplicidade.
Legado e Relevância Atual (até 2026)
O legado de Jatene perdura no InCor, que em 2023 celebrava 48 anos e continua referência em América Latina, com programas de telemedicina e pesquisa em IA para diagnósticos cardíacos. A operação de Jatene salvou milhões de vidas globalmente; centros como Mayo Clinic e Great Ormond Street a utilizam rotineiramente. No Brasil, inspirou o Sistema Único de Saúde (SUS) a expandir cirurgias congênitas gratuitas, reduzindo mortalidade infantil por cardiopatias de 20% nos anos 1980 para abaixo de 5% em 2020.
Até 2026, seu nome batiza salas cirúrgicas e prêmios da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Publicações citam sua técnica em mais de 10 mil artigos. Políticamente, suas gestões ministeriais influenciaram a Lei Orgânica da Saúde (1990). Em 2023, o Congresso aprovou medalha póstuma. Jatene simboliza superação brasileira em ciência médica, com impacto mensurável em sobrevida de pacientes pediátricos.
