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Abgar Renault

Abgar Renault

Biografia Completa

Introdução

Abgar Renault, nascido Abgar Renault de Campos Renault em 11 de janeiro de 1901, em Campina Grande, Paraíba, emergiu como figura chave do modernismo brasileiro inicial. Poeta, jornalista e tradutor, ele representou a vertente nordestina do movimento que eclodiu com a Semana de Arte Moderna de 1922 em São Paulo. Sua obra principal, "Cante lá que eu canto cá", publicada em 1928, inovou ao registrar o falar popular paraibano em versos livres, desafiando a norma culta da poesia brasileira.

Renault transitou entre o jornalismo agitado do Rio de Janeiro e a produção literária experimental. Ele dirigiu redações, traduziu autores europeus e integrou o establishment cultural, mas sua passagem pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) no Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-1945) provocou críticas por suposta conivência com a censura. Até sua morte em 1993, no Rio, Renault deixou um legado ambíguo: inovador na linguagem, controverso na biografia política. Sua relevância persiste na valorização da oralidade nordestina na literatura brasileira moderna.

Origens e Formação

Abgar Renault cresceu no interior da Paraíba, em Campina Grande, cidade marcada pelo sertão nordestino. Filho de família modesta, absorveu desde cedo o linguajar local, elemento central de sua poética futura. Em 1918, mudou-se para o Recife, onde ingressou na Faculdade de Direito do Recife. Lá, conviveu com intelectuais que fervilhavam com ideias modernistas vindas de São Paulo.

Não concluiu o curso de Direito. Em 1922, aos 21 anos, transferiu-se para o Rio de Janeiro, epicentro cultural da época. No Rio, iniciou carreira jornalística em veículos como "O Paiz" e "A Manhã". Essas experiências moldaram seu estilo direto e coloquial. Renault frequentou rodas modernistas, aproximando-se de figuras como Mário de Andrade, que elogiou sua capacidade de captar a voz popular. Sem formação acadêmica formal em letras, sua educação veio da rua, da redação e da leitura voraz de poetas simbolistas e vanguardistas europeus.

Essa origem periférica diferenciava Renault dos modernistas paulistas cosmopolitas. Ele incorporava o Nordeste ao movimento, registrando em versos o ritmo do spoken word regional, anos antes de Graciliano Ramos ou Rachel de Queiroz ganharem projeção.

Trajetória e Principais Contribuições

A trajetória de Renault ganhou impulso nos anos 1920. Em 1927, publicou seu primeiro livro, "Cantares", precursor de sua obra maior. No ano seguinte, lançou "Cante lá que eu canto cá", volume que o consagrou. O livro reunia poemas em linguagem sertaneja, com rimas aproximadas e sintaxe oral: "Ô trem bão, meu povo / Cante lá que eu canto cá". Essa fidelidade ao dialeto paraibano rompia com o parnasianismo reinante e antecipava o regionalismo social do modernismo de segunda fase.

No jornalismo, Renault brilhou. Dirigiu o suplemento literário de "A Noite" e trabalhou em "Diário Carioca". Sua crônica aguda cobria cultura e política, com viés progressista inicial. Nos anos 1930, expandiu para tradução: vertia Shakespeare ("Romeu e Julieta", 1932), Rilke e poetas alemães, introduzindo modernismo europeu ao público brasileiro. Publicou ainda "Poesias" (1934) e "Livro de Cordel" (1940), homenageando a literatura popular nordestina.

Durante o Estado Novo, assumiu cargo no DIP, órgão de propaganda e censura de Vargas. Fiscalizava publicações, aprovando ou vetando conteúdos. Essa fase marcou controvérsia: modernistas como Oswald de Andrade o acusaram de traição ideológica. Renault defendeu-se alegando pragmatismo para sobreviver. Pós-1945, retomou a literatura com "Cantigas do Sertão" (1950) e continuou traduzindo até os anos 1970.

Sua contribuição principal reside na democratização da poesia. Renault provou que o modernismo podia nascer fora de São Paulo, valorizando a periferia linguística. Listam-se marcos:

  • 1928: "Cante lá que eu canto cá" – ícone do modernismo oral.
  • 1932: Primeiras traduções shakespearianas.
  • 1940: "Livro de Cordel" – fusão de vanguarda e folclore.
  • Anos 1950-60: Crônicas em jornais, influenciando nova geração.

Ele publicou cerca de dez livros, além de centenas de artigos.

Vida Pessoal e Conflitos

Renault casou-se com Elza Renault, com quem teve filhos. Residiu no Rio por décadas, em apartamentos simples no Flamengo. Sua vida pessoal reflete o vaivém carioca: festas literárias misturadas a rotinas jornalísticas exaustivas. Amigo de Mário de Andrade, correspondeu-se com ele sobre poética regional.

Conflitos definiram sua imagem. A censura no DIP gerou ostracismo entre pares modernistas. Em 1945, com a queda de Vargas, perdeu o cargo e enfrentou críticas públicas. Oswald de Andrade ironizou sua "conversão" ao regime. Renault rebateu em entrevistas, argumentando necessidade econômica em tempos ditatoriais. Outra crise veio nos anos 1960, com o AI-5: recusou cargos semelhantes, mantendo-se à margem.

Saúde debilitada nos anos 1980 limitou sua produção. Viveu recluso, mas concedeu entrevistas reafirmando orgulho nordestino. Morreu em 19 de dezembro de 1993, aos 92 anos, vítima de complicações cardíacas. Sem escândalos pessoais graves, seus conflitos foram ideológicos, entre ideal modernista e realpolitik.

Legado e Relevância Atual (até 2026)

Abgar Renault influencia o modernismo brasileiro como ponte entre elite paulista e cultura popular nordestina. Sua ênfase na oralidade inspira poetas contemporâneos como João Cabral de Melo Neto em aspectos formais. "Cante lá que eu canto cá" integra antologias escolares, destacando diversidade linguística.

Até 2026, edições críticas de suas obras circulam, com estudos acadêmicos analisando sua fase censora como exemplo de ambiguidades intelectuais em ditaduras. Festivais em Campina Grande o homenageiam anualmente. No contexto da literatura periférica atual – com autores como Conceição Evaristo –, Renault simboliza resistência cultural via linguagem. Pesquisas em universidades federais resgatam suas traduções, ampliando acesso a Rilke em português. Seu legado persiste neutro: nem herói nem vilão, mas espelho das contradições do século XX brasileiro.

Pensamentos de Abgar Renault

Algumas das citações mais marcantes do autor.